Por Machado de Assis (1874)
— Minha senhora, disse Batista arrestando-se na sala diante de D. Angélica, muito há que eu nutro, dentro do meu coração, um destes sentimentos que, mal aplicados, podem produzir não só os infortúnios domésticos como até a ruína dos impérios, e, bem aplicados, são a verdadeira bem-aventurança deste mundo. O amor, minha senhora, é o que o bordão é para os cegos, o vento para os navegantes, a saúde para os enfermos, o espaço para os passarinhos...
— Então, ama?
— Loucamente. Seria um inferno este amor se não fosse retribuído. O que é um amor sem retribuição? É o abutre de Prometeu. Sou recompensado com igual amor ao meu: amor amore, diz a sentença latina.
— Que deseja de mim?
— A luz. A senhora tem a minha luz nas suas mãos; pode dar-ma se quiser. Amo sua filha D. Teresa, e desejo unir-me a ela pelos laços matrimoniais...
D. Angélica tinha percebido algum namoro entre a filha e o Batista, mas não cuidou que estivessem tão próximos do casamento. O que sobretudo a fez pasmar foi a escolha do dia. A este respeito observou Batista que, vindo a palavra entrudo do latim entroito, que quer dizer entrada, estava ele de acordo com o dia desejando entrar na família. O trocadilho despertou as recordações conjugais da sra. D. Angélica, que citou mais uma
anedota do finado Tomás Sanches.
— Quanto ao que me pede, concluiu ela, se Teresa quiser, não tenho razão que opor a uma união que desejo ver feliz e tranqüila.
— A senhora chega ao sublime! disse Batista.
Depois abrindo os braços:
— Minha mãe! exclamou ele.
D. Angélica abraçou-o cerimoniosamente, porque achava o rapaz romântico demais.
— Quando poderei ter resposta definitiva?
— Já, se quer; mas é melhor logo...
— Quando lhe...
Neste momento ouviu-se um grande grito, depois outro e outro; depois um barulho infernal. D. Angélica correu à sala para saber o que era; Batista foi atrás dela. Na sala ninguém sabia a causa do barulho.
O barulho vinha da cocheira.
— Há de ser algum sujeito que os rapazes meteram no banho, disse D. Angélica trêmula. Ah! meu Deus! estes pequenos ainda me hão de dar algum desgosto grande! Quis descer; mas Batista a impediu alegando gravemente que uma senhora nunca deve descer.
Os gritos continuaram ainda algum tempo. Depois cessaram; ouviu-se uma voz trêmula de frio lançar uma imprecação aos rapazes.
— Ah! meu Deus! que rapazes! que desgostos!
Subiu alguém a escada; dai a alguns segundos, entrava na sala o sr. Tibúrcio, vestido de branco, mas todo molhado como se saísse do mar. Entrou respingando a sala toda.
— Jesus! que é isso?
— Ah! minha senhora, eis o estado em que me puseram os seus rapazes! Veja se isto não é um desaforo! Entrei com toda a confiança em sua casa, e os seus meninos, sem que eu lhes houvesse feito mal, agarram-me, metem-me dentro de uma gamela e despejam-me um barril de água por cima, ajudados por dois moleques!
A narração fez enraivecer D. Angélica e rir as raparigas. Efetivamente a figura do Tibúrcio era mais para rir que outra coisa. O homem bufava que parecia uma baleia. Batista agradeceu ao céu ter vindo em ocasião em que encontrou os rapazes em cima, escapando assim a alguma caçoada.
Assentou-se o Tibúrcio, enquanto D. Angélica ia ver se havia roupa em casa que lhe servisse para mudar aquela.
Tibúrcio contava as suas impressões do banho a D. Maria, e Batista conversava com D. Teresa a quem deu a agradável notícia de que tudo estava arranjado.
De repente aparece Carlos à porta da sala, armado de uma grande seringa de folha-de flandres, pede silêncio às moças com um sinal, e deita um esguicho à nuca do Tibúrcio. Tibúrcio soltou um grito, pegou na cadeira e removeu como pôde o corpo até à porta da sala; mas Carlos, que sabia o sistema dos antigos Partos, fugiu dando-lhe mais um esguicho pela cara.
— Não se zangue, disse D. Maria acalmando Tibúrcio que prometeu desancar o rapaz; isto afinal são brincadeiras de rapazes... Todos eles o respeitam muito.
— Não está mau o respeito!
D. Angélica voltou à sala.
— Sr. Tibúrcio, vá lá para o quarto da sala de costura; já lá mandei pôr alguma roupa. Tibúrcio obedeceu.
D. Angélica mandou ordem terminante aos filhos que subissem.
Subiram.
— Que desaforo é esse, rapazes? disse ela.
— O que é mamãe? perguntaram ambos.
— Pois então vocês não respeitam um homem velho e sério, que nos visita? Isto é bonito?
— Mas foi uma brincadeira.
— Pois eu não quero mais essa brincadeira... Brinquem lá com quem quiserem mas não com as pessoas que vêm à minha casa.
Interveio o futuro genro de D. Angélica.
— Minha senhora, eu estou convencido que estes dignos moços brincam como todos os da nossa idade, sem nenhuma intenção de ofensa. São jovens dignos de toda a estima; incapazes de ofender a quem quer que seja, mormente às pessoas que têm a honra de freqüentar esta casa.
— É verdade! disse Carlos...
— Portanto, continuou o advogado dos rapazes, releve-se-lhes um ato próprio do dia.
— Muito bem! exclamaram os dois rapazes aproximando-se de Batista para lhe agradecer a defesa. Batista estendeu-lhes a mão.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Um dia de entrudo. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, jun.-ago. 1874.