Por Machado de Assis (1877)
— E continuará a sê-lo.
— Zeloso, cortês, inteligente...
— Verás; é uma pérola. Se não fosse eu, talvez a esta hora...
— Pobre rapaz!
— Já te contei que o salvei da morte?
— Já, já.
— Pois é verdade, se passo ali meia hora depois, era homem morto.
— Praticaste uma boa ação, Marques.
— Oh!... Não falemos nisso.
— E podes crer que ele te é grato. Ainda hoje, perguntando-lhe eu, à mesa do almoço, se te conhecia há muitos anos, falou de ti com um entusiasmo! um ardor!...
— Sim?
— Não imaginas.
José Marques não escondeu, nem procurou fazê-lo, a boa impressão que lhe causara a notícia de Madureira. Afagou as barbas, abotoou e desabotoou o paletó, enfim expectorou este aforismo:
— A verdadeira paga do benefício é a gratidão do beneficiado.
— Não há outra, opinou Madureira. Infelizmente, são raros os agradecidos.
— Raríssimos, confirmou José Marques. Eu, pela minha parte, tenho visto poucos. Mas não me engano com aquele. O Seixas nunca se há de esquecer de mim. Nem é fácil. Tu eras capaz de esquecer um homem que te desse a vida e o pão?
— Nunca.
— Pois!
No fim do mês Seixas foi ter com José Marques para lhe dizer que amortizara parte da dívida contraída na loja de roupa. Havendo algumas pessoas presentes, não quis ele dizer logo ao que vinha; José Marques apressou-se a chamá-lo de parte, onde lhe ouviu a boa notícia.
— Não havia pressa, observou ele.
— Convém pagar quanto antes. Todas as dívidas devem ser pagas; esta mais depressa que as outras, porque é preciso desempenhar a tua honrada palavra, e ao mesmo tempo mostrar que não lançaste a semente do benefício em terra estéril...
— Quem te diz isso, homem? Estás contente com o Madureira?
— Estou.
— Também ele contigo.
— Sim? Tanto melhor.
— Agora, é fazeres por ser bom cavalheiro. Eu digo de ti o que devo e mereces, porque não entendo que a prova de amizade consista somente em certos benefícios. Nem só de pão vive o homem. Vive de pão e de crédito. O Madureira sabe o que és e o que vales.
— Obrigado, Marques! disse Seixas estendendo-lhe a mão.
— Onde vais?
— Vou à casa.
— Espera um pouco...
— Se puderes dispensar-me era favor.
— Tens algum negócio urgente?
— Urgentíssimo.
Seixas saiu e dirigiu-se para o Beco do Cotovelo, entrou em casa e lá ficou até o dia seguinte. Era noite; ocupou-se em apurar um assunto de que trataremos no capítulo
seguinte.
III
Seixas não fora sempre combatido da fortuna. Tempo houve em que a cidade o viu brilhar entre os elegantes de calças cor de flor de alecrim. Dotado de aceitável figura, de uns olhos insinuantes e vivos, feriu alguns corações ingênuos, que em vão esperaram o bálsamo matrimonial. Muitos deles recorreram a outros; alguns ainda esperam boticário próprio. Um desses, em despeito das posturas canônicas e civis, aceitou os conselhos de Seixas, curandeiro de má morte, que transviou o irrefletido coração, de que tudo resultou uma menina gentil como os amores. A menina e a mãe viviam em casa de uma velha parenta, casa que Seixas freqüentou algum tempo, mas de onde o arredaram os lances da fortuna.
Na véspera do dia em que José Marques o encontrou no Passeio Público, Seixas fora ver a sua Elvirinha, criança de quinze anos, de quem se despediu com lágrimas, no meio de grande espanto da mais família, que não atinou logo com a causa daquela aflição. Era a despedida da morte. Arrancado a tempo do fatal abismo em que ia cair, Seixas lembrava se agora da filha, e sonhava uma família e uma casa. O sonho não combinava muito com a realidade. Seixas compreendia perfeitamente que a sua sorte era ainda mais precária que os recursos. Mas ao mesmo tempo uma esperança vaga lhe falava no coração, voz consoladora ou pérfida, a última felicidade dos desamparados. Era esta voz que lhe contava antecipadamente as alegrias do futuro, dizendo-lhe à guisa das feiticeiras de Macbeth:
— Tu serás sócio do Madureira!
A predição não era extravagante. Madureira tratava-o com tamanha benevolência e distinção, que a idéia de o fazer seu sócio podia nascer-lhe um dia de manhã, sem pasmo para ninguém.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Um almoço. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1877.