Por Machado de Assis (1876)
— Não é muito, mas é um bom princípio, repetiu este.
— E há já algum farejador? arriscou o namorado.
— Nenhum.
— Admira!
— Há muita gente que passa e olha, mas ela não se importa com ninguém. André Soares estava mais contente do que se lhe viessem trazer o decreto da nomeação malograda. Tinha a moça todas as condições que ele podia exigir naquelas circunstâncias. Sobretudo achava-se ele livre de concorrentes. Se fosse três meses antes...
— Três meses antes, disse o informante, andou aqui um moço que não era mal aceito; mas desapareceu.
André Soares saiu dali contentíssimo.
— Foi um anjo que o céu me enviou, pensava ele, para me salvar da morte e ao mesmo tempo trazer-me a felicidade. E digam lá que não há Providência ou sorte, ou o que quer que seja que vela pelos homens! A pequena é uma formosura, e o pé é o mais gentil que até hoje tenho visto. Que pé! Não é um pé, é um milagre. E os olhos? e o andar? Fez o namorado assim o inventário das belezas da formosa Cláudia, foi jantar alegremente e logo de tarde deu o seu passeio pela Rua dos Inválidos, tão embebido em olhar para a janela onde estava a moça que não reparou no caixeiro da padaria que se arrimara à porta para assistir ao romance.
III
Era claro que a viúva Cláudia gostava do rapaz; trocou com ele um longo e expressivo olhar e dignou-se responder com am sorriso ao sorriso que André Soares lhe enviou. Quando ele de todo desapareceu, Cláudia entrou e foi tocar piano. Não escolheu um trecho alegre adequado à situação; preferiu uma melodia triste que parecia dizer com a sua alma, ou ao menos que ela queria que se parecesse com ela. O certo é que, voltando daí a pouco André Soares e ouvindo-a tocar coisas tão melancólicas, sentiu acordar-lhe dentro d’alma um som poético da sua adolescência, e logo nesta noite expectorou uma elegia tão triste que não trazia um verso certo.
A primeira carta não se fez demorar, e a resposta foi imediatamente às mãos do namorado. Não era carta apaixonada a da moça, mas André Soares compreendeu que ela usara de certa reserva que lhe parecia necessária. Replicou o pretendente, treplicou a dama, e os autos de coração foram-se avolumando progressivamente, até que André Soares entendeu que era conveniente freqüentar a casa e aproveitou uma apresentação que lhe ofereceram.
A primeira vez que se falaram os dois foi visível para o sr. Justino Magalhães, irmão de Cláudia, que eles se amavam.
Justino Magalhães tinha um programa na vida: agradar aos pretendentes da irmã, a fim de poder continuar a viver economicamente, isto é, a ter casa e mesa sem despender um real. Fiel a estas idéias, tratou de captar a boa vontade de André Soares, que por sua parte se atirou de corpo e alma aos braços do futuro cunhado.
Cláudia era ainda mais bela de perto que de longe; o namorado verificou logo essa diferença quando começou a freqüentar a casa. A moça era sobretudo de uma meiguice incomparável. André Soares ficava encantado quando falavam algum tempo a sós, e ela podia expandir-se com ele.
— Mas por que motivo me distinguiu logo naquele dia na barca? perguntara André uma noite à moça.
— Ora, por quê? Porque o céu nos destinou um para o outro.
— E se soubesse!...
— O quê?
— Não lhe digo.
— Receia?...
— Nada; tenho vergonha. Naquele fatal dia...
— Fatal... repetiu a moça com um ar de doce ressentimento.
— Perdão; fatal por outro motivo, que eu só mais tarde lhe explicarei... Sim, há anjos que velam por nós.
— Há! suspirou a moça.
A conversa foi interrompida por Justino, que se aproximou para dizer que no dia seguinte havia um bonito espetáculo no teatro S. Luís.
André Soares recebera justamente nesse dia o ordenado; era ocasião de fazer um convite.
— Tenho justamente camarote para amanhã, disse ele; se quiserem dar-me a honra de aceitar...
— Mas... ia ela dizendo.
— Com muito gosto, atalhou Justino.
O camarote foi aceito.
Mas a curiosidade da moça trabalhava. Que mistério seria esse de que lhe falara André Soares? Insistiu com ele dali a algum tempo, e no dia seguinte, e alguns dias depois, até que o namorado francamente confessou que um motivo grave o levara a cometer um crime.
— Um crime?
— A minha própria morte.
A moça ficou séria.
— Alguma paixão, disse ela com tristeza.
— Oh! não!
— Não compreendo...
(continua...)
ASSIS, Machado de. To be or not to be. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1876.