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#Ensaios#Literatura Brasileira

A Esfinge

Por Euclides da Cunha (1907)

É duvidoso. Representamos desastradamente. Baralhamos os papéis da peça que deriva num jogar de antíteses Infelizes, entre senadores armados até aos dentes, brigando como soldados, e militares platônicos bradando pela paz — diante de uma legalidade que vence pela suspensão das leis e uma constituição que estrangulam abraços demasiados apertados dos que a adoram.

Daí as antinomias que aparecem. Neste enredo de Eurípedes, há um contraregra — Sardou. Os heróis desmandam-se em bufonerias trágicas. Morrem, alguns, com um cômico terrível nesta epopéia pelo avesso. Sublimam-se e acalcanham-se. Se há por aí Aquiles, não é difícil descobrir-lhes no frêmito da voz imperativa a casquinada hilar de Trimalcião.

E a Esfinge...

Mas interrompi este desfiar de conjecturas.

Aproximavam-se dois vultos. Nada tinham de alarmantes, porque a guarda, velando à entrada da rua, lhes permitira a passagem. Vinham à paisana. Chegaram até à borda da plataforma, onde uma lanterna clareava o estrado num raio de dois metros; e pararam.

Aproximei-me, saudando-os.

Um (reformado do Paraguai que a República retirou de um cartório de tabelião para o fazer senador e general), com aprumo varonil a despeito da idade, correspondeu-me britanicamente, corretíssimo e firme. O outro, murchou-lhe a mão num cumprimento frio...

À meia penumbra da claridade em bruxoleios, lobriguei um rosto imóvel, rígido e embaciado, de bronze: o olhar sem brilho e fixo, coando serenidade tremenda, e a boca ligeiramente refegada num rictus indefinível — um busto de duende em relevo na imprimidura da noite, e diluindo-se no escuro feito a visão de um pesadelo.

Reconheci-o e emudeci, respeitando-lhe o incógnito.

Vi-o logo depois abeirar-se da trincheira; e debruçar-se sobre o plano de fogo, e ali ficar meio minuto, pensativo, a vista cravada entre a afumadura das brumas, na outra banda da baía.

— Estão tranqüilos... murmurou.

Fez um gesto breve, despedindo-se, e seguiu acompanhado do companheiro desempenado e vivo, desaparecendo ambos a breve trecho — duas silhuetas agitando-se um momento, ao longe, ao brilho escasso de um lampião distante e embebendo-se depois, inteiramente, na noite...

Curvei-me, então, de novo, sobre a canhoneira recém-construída e reatei o meu sonhar acordado no ponto em que o interrompera: ...e a Esfinge, quebrando a imobilidade da pedra, veste um paletó burguês e vem — desconfiadamente confiante — rondar os lutadores...

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