Por Euclides da Cunha (1907)
Compreende-se, então, a última entente cordialíssima entre a Inglaterra e a França, rematando tão de improviso uma rivalidade secular. Não no-la explicam as simples tendências galófilas do antigo príncipe de Gales. A política inglesa é a menos sentimental das políticas, e embora a inquinassem os nossos belos defeitos latinos, o seu aparelho complexo repele todos os influxos pessoais. A explicação reponta das linhas anteriores. A arrogância britânica, tão desafiadora ainda há pouco em Fashoda, transmudou-se em dócil cortesia, porque se lhe antolhava, depois do problema africano resolvido no Transvaal, o problema asiático, mais sério e quase misterioso no intricado de infinitas incógnitas.
Previu próxima e inevitável deslocação da sua força para a Ásia, a enterreirar um antagonista que além da própria robustez lhe tem às portas, separado pelas seis horas de travessia da Mancha, um aliado respeitável. Era-lhe preciso remover todas as interpretações inconvenientes da aliança franco-russa. Daí as suas transigências quanto aos pontos controvertidos em Sião, o abandono dos projetos de linhas férreas contrapostos aos interesses franceses no sudoeste chinês, assim como as suas imprevistas concessões do norte da África e na Terra Nova — e sobretudo o afogo, a ânsia, a vibratibilidade perfeitamente latina com que se precipitam os debates do acordo anglo-francês, na Câmara dos Comuns. De qualquer modo, deixando o seu esplêndido isolamento, o Reino Unido enfraquecerá os compromissos franceses na dupla aliança e poderá abalançar-se à maior das guerras.
A situação é clara.
Se a Rússia for vencida, não terá o apoio do Ocidente num trabalho de paz que lhe salve ao menos uns restos de domínio. A convenção anglo-japonesa de julho de 1902, tão denunciativa do largo descortínio de Chamberlain, e destinada sobretudo a fechar as estradas da Índia e do Pacífico à Rússia, terá todos os seus efeitos, e o governo de Mikado ficará largamente compensado do amargo desapontamento daquele ilógico tratado de Simonosaki, em que as nações interventoras, entoando um vae victoribus! extravagante, lhe remataram as vitórias sobre a China, obrigando-o a respeitar a integridade territorial do vencido. A Coréia, o Império da Manhã Serena, cairá inteiramente na órbita do Sol Levante...
E se a Rússia triunfar — o historiador futuro terá de narrar uma campanha tão anormal, tão vasta e cheia de titânicas batalhas, que todos os recontros e assaltos desta rude refrega, desencadeada agora no Oriente, surgirão apequenados, feitos simples combates de vanguardas.
Baixar texto completo (.txt)CUNHA, Euclides da. Contrastes e confrontos. Rio de Janeiro: Laemmert, 1907.