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#Ensaios#Literatura Brasileira

O Marechal de Ferro

Por Euclides da Cunha (1907)

Conta-se que ao estalar a revolução de 6 de setembro, no meio do espanto, e do alarma, e do delírio de adesões e entusiasmos, que para logo repontaram de todos os lados, gerando aquela angustiosíssima comoção nacional culminada pela loucura trágica de Aristides Lobo — conta-se que o marechal Floriano requintara na proditoria quietude.

Impassível naquele estonteamento, superpôs ao tumulto o seu meio sorriso mecânico e o seu impressionador mutismo.

Num dado momento, porém, abeirou-se de uma das janelas do palácio abertas na direção aproximada do mar; e ali quedou um minuto, meditativo, na atitude habitual da sua apatia, enganosa e falsa...

Depois alevantou vagarosamente a mão direita, espalmada, vertical e de chapa para o ponto onde se adivinhavam os navios revoltosos, no gesto trivial e dúbio de quem atira longe uma esperança ou uma ameaça... Traçou naquele momento o molde da sua estatua. Nenhum escultor de gênio o imaginará melhor, a um tempo ameaçador e plácido, sem expansões violentas e sem um tremor no rosto impenetrável, desdobrando silenciosamente, diante do assalto das paixões tumultuárias e ruidosas, a sua tenacidade incoercível, tranqüila e formidável.

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