Por Machado de Assis (1877)
A ambição de Silvestre — não digo bem — a necessidade de Silvestre era trazer à luz do sol e à contemplação dos homens uma Vênus que ele tinha na cabeça. No prefácio da obra sobre belas-artes que ele comprara ao algibebe lera o rapaz que o cristianismo expulsara os deuses pagãos do céu; Silvestre ignorava o que fossem deuses pagãos, mas alguns retalhos de frases do mencionado livro lhe deram idéias mais ou menos exatas do paganismo. Imaginava ele pintar uma Vênus expulsa do céu, com uma expressão e uma atitude inteiramente novas. O professor, homem de seu tempo, forcejava por arredá-lo de assuntos puramente clássicos; infundia-lhe o espírito do século. A natureza americana, a história moderna, a mesma história pátria, os costumes e as lendas nacionais podiam dar-lhe assunto a um painel superior; Silvestre não abria mão de Vênus. O livro dominava-o; a primeira leitura enfreava-lhe o espírito.
— Percebo, disse-lhe um dia o professor, você tem na cabeça um ideal de beleza, é-lhe preciso transcrever na tela; escolhe Vênus que era a deusa das graças. Vá lá; faça esse quadro; voltará depois aos meus conselhos.
Não é preciso dizer que a Vênus e o escrivão eram inconciliáveis, e que, uma vez metido com tintas não podia Silvestre seguir com a mesma atenção os traslados e as certidões. Assim que o trabalho diminuía, as certidões saíam erradas, e o que mais era, o escrevente gazeava com freqüência o cartório. As coisas chegaram a tal ponto que o escrivão preferia vê-lo ausente. Um dia, porém, demorado um traslado por culpa de Silvestre, não teve o escrivão outro remédio mais que contar tudo ao procurador. Este notara algumas vezes a ausência do filho; mas no dia em que o escrivão lhe contou que as ausências eram multiplicadas e a desatenção do rapaz sem remédio, ficou mais consternado do que se lhe tirassem todas as procurações.
— Maroto! exclamou o pobre pai. Vou dar-lhe uma lição mestra. É a mania dos bonecos! Não cuida em outra coisa.
A lição foi comutada em repreensão graças à intervenção da mãe de Silvestre.
— Hás de ser homem do foro, quer queiras quer não! Perorou José Vargas. O foro é que te há de dar o pão; não hão de ser os panos pintados! Ou trabalharás como eu quero, ou vou meter-te no Arsenal de Guerra. Pelintra! Abusar da confiança de um homem honrado, estragar-lhe os papéis, comprometê-lo quase! Isto suporta-se? Sai! Vai-te embora! A última palavra era um grito do coração do procurador, em quem o olhar doce e lastimado do filho começava a influir. Silvestre recolheu-se à alcova com a alma dilacerada. Tinha então quinze anos; via já claramente que devia renunciar a uma das duas coisas: a arte ou a família. O amor e a vocação lutaram nele com armas de igual têmpera; áspera e pertinaz refrega que acabou afinal, não pela vitória, mas pela esperança — a esperança de conciliar o cartório e a oficina. A solução consolou-o, como sabem consolar todas as quimeras. O pai mandou-o chamar.
— Resolvi tirar-te do cartório, disse ele, saboreando a alegria vã do filho; vais ser escrevente do dr. Luís Borges. Não só serás seu escrevente, mas até irás morar com ele. Virás ver-nos aos domingos, ou de mês em mês, conforme te portares. Silvestre lançou-se-lhe aos pés.
— Adeus! exclamou o pai; não percas tempo, que é aborrecer-me. Resolvi e não recuo. Nem os rogos da mãe nem os da irmã puderam demover o procurador da resolução assentada. Força era obedecer. A mãe de Silvestre tratou de o aconselhar a proceder bem, com o fim de ver se afrouxava o ânimo do pai; a irmã desfazia-se em lágrimas; o procurador afogava a comoção em rapé.
O dr. Luís Borges que José Vargas tirava assim da algibeira, como um chicote para castigar o filho, estivera com o procurador duas horas depois da repreensão que este fizera ao rapaz. O procurador contou-lhe as suas mágoas, a repugnância do filho ao trabalho forense, a inclinação de desenhar retratos.
— A maior parte do tempo consome-a naquilo, disse ele. Se não fosse franzino eu já o tinha metido no Arsenal ou em alguma outra parte, em que o obrigasse tal ou qual disciplina. Não sei realmente o que espera ele da...
— Mas já viu alguma pintura dele?
— Eu sei lá! uns rabiscos e pinceladas, que não entendo. Mas, ainda que entendesse aquilo é lá ofício que deixe lucro?
O advogado torceu a pêra, consertou a gravata e disse:
— Vou propor-lhe uma coisa.
— Diga!
— Seu filho precisa de um freio, não é? Pois eu me encarrego de o pôr a bom caminho. Faço-o meu escrevente, trabalhará debaixo da minha inspeção. Mas, não sendo isso bastante, convém que ele venha viver comigo; sairá do escritório para casa, e de casa para o escritório. Fá-lo-ei trabalhar, de modo que esqueça as tais pinturas. Serve-lhe?
A proposta era tão inesperada que o procurador não pôde responder logo; tudo entrava em seus cálculos, menos separar-se do filho. Contudo, a oferta era tão generosa, a proteção do advogado tão útil, que fora erro e descortesia não aceitar. O procurador aceitou, com muito agradecimento. Assentou-se que Silvestre iria na segunda-feira próxima para casa de Luís Borges.
Silvestre empacotou os seus pincéis, telas e cavalete, o seu livro de artes, alguns desenhos, vários esboços, enrolou tudo em folhas verdes de esperança, engolindo muita lágrima, e declarou-se pronto a seguir seu destino. O pai comoveu-se na ocasião de o abençoar, mas disfarçou o abalo dizendo ao filho:
— Vai com Deus! Se trabalhares com afinco e zelo, há em ti um bom tabelião.
— Não, murmurava o coração do adolescente, há em mim uma obra-prima.
II
(continua...)
ASSIS, Machado de. Silvestre. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1877.