Por Machado de Assis (1873)
Luís da Costa cortejou os outros e saiu ao lado do major Gouveia, a quem deu respeitosamente a calçada e ofereceu um charuto. O major recusou o charuto, dobrou o passo e os dois seguiram na direção da Rua dos Pescadores.
V
— O sr. Pires?
— Foi à secretaria da Justiça.
— Demora-se?
— Não sei.
Luís da Costa olhou para o major ao ouvir estas palavras do criado do sr. Pires. O major disse fleugmaticamente:
— Vamos à secretaria da Justiça.
E ambos foram a trote largo na direção da Rua do Passeio. Iam-se aproximando as três horas, e Luís da Costa, que jantava cedo, começava a ouvir do estômago uma lastimosa petição. Era-lhe porém, impossível fugir às garras do major. Se o Pires tivesse embarcado para Santos, é provável que o major o levasse até lá antes de jantar. Tudo estava perdido.
Chegaram enfim à secretaria, bufando como dois touros.
Os empregados vinham saindo, e um deles deu notícia certa do esquivo Pires; disse-lhes que saíra dali, dez minutos antes, num tílburi.
— Voltemos à Rua dos Pescadores, disse pacificamente o major.
— Mas, senhor...
A única resposta do major foi dar-lhe o braço e arrastá-lo na direção da Rua dos Pescadores.
Luís da Costa ia furioso. Começava a compreender a plausibilidade e até a legitimidade de um crime. O desejo de estrangular o major pareceu-lhe um sentimento natural. Lembrou-se de ter condenado, oito dias antes, como jurado, um criminoso de morte, e teve horror de si mesmo.
O major, porém, continuava a andar com aquele passo rápido dos majores que andam depressa. Luís da Costa ia rebocado. Era-lhe literalmente impossível apostar carreira com ele.
Eram três e cinco minutos quando chegaram defronte do escritório do sr. Pires. Tiveram o gosto de dar com o nariz na porta.
O major Gouveia mostrou-se aborrecido com o fato; como era homem resoluto, depressa se consolou do incidente.
— Não há dúvida, disse ele, iremos à Praia Grande.
— Isso é impossível! clamou Luís da Costa.
— Não é tal, respondeu tranqüilamente o major, temos barca e custa-nos um cruzado a cada um: eu pago a sua passagem.
— Mas, senhor, a esta hora...
— Que tem?
— São horas de jantar, suspirou o estômago de Luís da Costa.
— Pois jantaremos antes.
Foram dali a um hotel e jantaram. A companhia do major era extremamente aborrecida para o desastrado alvissareiro. Era impossível livrar-se dela; Luís da Costa portou-se o melhor que pôde. Demais, a sopa e o primeiro prato foi o começo da reconciliação. Quando veio o café e um bom charuto, Luís da Costa estava resolvido a satisfazer o seu anfitrião em tudo o que lhe aprouvesse.
O major pagou a conta e saíram ambos do hotel. Foram direitos à estação das barcas de Niterói; meteram-se na primeira que saiu e transportaram-se à imperial cidade. No trajeto, o major Gouveia conservou-se tão taciturno como até então. Luís da Costa, que já estava mais alegre, cinco ou seis vezes tentou atar conversa com o major; mas foram esforços inúteis. Ardia entretanto por levá-lo até a casa do sr. Pires, que explicaria as coisas como as soubesse.
VI
O sr. Pires morava na Rua da Praia. Foram direitinhos à casa dele. Mas se os viajantes haviam jantado, também o sr. Pires fizera o mesmo; e como tinha por costume ir jogar o voltarete em casa do dr. Oliveira, em S. Domingos, para lá seguira vinte minutos antes.
O major ouviu esta notícia com a resignação filosófica de que estava dando provas desde as duas horas da tarde. Inclinou o chapéu mais à banda e olhando de esguelha para Luís da Costa, disse:
— Vamos a S. Domingos.
— Vamos a S. Domingos, suspirou Luís da Costa.
A viagem foi de carro, o que de algum modo consolou o noveleiro.
Na casa do dr. Oliveira passaram pelo dissabor de bater cinco vezes, antes que viessem abrir.
Enfim vieram.
— Está cá o sr. pires?
— Está, sim, senhor, disse o moleque.
Os dois respiraram.
O moleque abriu-lhes a porta da sala, onde não tardou que aparecesse o famoso Pires, l’alma, visto estar para casar. Não lhe disse, porém, que havia namoro... O major não pôde disfarçar um sorriso, vendo que o boato ia a diminuir à proporção que se aproximava da fonte. Estava disposto a não dormir sem dar com ela.
— Muito bem, disse ele; a mim não basta esse dito; desejo saber a quem ouviu, a fim de chegar ao primeiro culpado de semelhante boato.
— A quem o ouvi?
(continua...)
ASSIS, Machado de. Quem conta um conto.... Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1873.