Por Machado de Assis (1873)
Pergunta-me o que farei eu no caso de nunca encontrar o ideal que procuro? Já lhe disse: nesse caso fico solteira. O casamento é uma grande coisa, é a flor dos estados, concordo; mas é mister que não seja um cativeiro, e cativeiro é tudo o que não realiza as nossas aspirações íntimas.
Agradeço os seus conselhos, mas quer que lhe diga? Você fala como quem é feliz; pareceu lhe que o casamento, quaisquer que sejam as condições, é um antegosto do paraíso. Creio que nem sempre há de ser assim.
Verdade é que, dependendo as coisas das impressões de cada um, a Mariquinhas pode ser feliz, visto que o marido que escolheu parece falar-lhe ao coração. Não o nego; nesse caso, continuo a lastimá-la, porque (repito) não compreendo a união de uma flor com uma carapuça. E não escrevo mais por não dizer mal dela. Perdoe-me você estas tolices, e creia que sou amiga, agora e sempre.
Raquel
VIII
À MESMA
Corte, 8 de janeiro
Casou-se mariquinhas. Festa íntima, mas brilhante. A noiva estava esplêndida, risonha, orgulhosa. O mesmo se pode dizer do noivo, que parecia ainda mais moço do que me parecera uma vez no teatro, a ponto de me fazer desconfiar da velhice dele. A cada instante cuidava que o homem tirava a máscara e confessava ser irmão do filho.
Perguntar-me-á você se eu não tive inveja?
Confesso que sim.
Não sei se era inveja; confesso porém que suspirei quando vi a nossa formosa Mariquinhas com seu véu e sua grinalda de flores de laranja, derramar um olhar tão celeste em torno de si, feliz por se despedir deste mundo de futilidades como é a vida de uma moça solteira. Suspirei, é verdade.
Se naquela mesma noite eu pudesse escrever o que senti, acredite você teria uma página de literatura digna de figurar nos jornais.
Hoje tudo passou.
O que não passou, entretanto, porque existia antes e existirá sempre, porque nasceu comigo e comigo morrerá, é este sonho de uns amores que eu nunca vi na terra, uns amores que eu não posso exprimir, mas que devem existir visto que eu tenho a imagem deles no espírito e no coração.
Mamãe quando me vê aborrecida e devaneadora, costuma perguntar-me se estou respirando as nuvens. Ela ignora talvez que exprime com essa palavra o estado do meu espírito. Pensar nestas coisas não é ir respirar as nuvens lá tão longe da terra?
Acabo de reler o que escrevi, e riscaria tudo se tivesse mais papel para escrever. Infelizmente não tenho, é meia-noite, e esta carta há de seguir amanhã cedo. Risque pois o que aí fica escrito; não vale a pena guardar tolices.
Novidades não há que mereça a pena de mencionar. Esqueci-me de dizer-lhe que achei uma verdadeira qualidade no Dr. Alberto. Adivinha? Dança admiravelmente. Má língua! dirá você. E para que não diga mais nada, aqui me fico.
Raquel
IX
À MESMA
Corte, 10 de janeiro
Isto é apenas um bilhetinho. Dou-lhe notícia de que vamos ter aqui uma representação familiar, como fazíamos no colégio. O Dr. Alberto foi encarregado de escrever a comédia; afiançam-me que há de sair boa. Representa comigo a Carlota. Os homens são o primo Abreu, o Juca e o Dr. Rodrigues. Ah! se você cá estivesse!
Raquel
X
D. LUÍSA A D. RAQUEL
Juiz de Fora, 15 de janeiro
Meu marido quer ir à corte no fim do mês que vem. Ver-nos-emos enfim depois de alguns meses de separação. Escrevo apenas para lhe dar esta notícia que você há de estimar decerto. E ao mesmo tempo o meu fim é preveni-la, a fim de que procure disfarçar na presença aquilo que me disfarça no papel.
Adeus.
Luísa
XI
D. RAQUEL A D. LUÍSA
Corte, 20 de janeiro
O que é que disfarço no papel? Estou a meditar, a esquadrinhar, e nada descubro. Podia imaginar que você se refere ao assunto do Alberto; mas depois do que eu lhe escrevi seria demasiada insistência...
Explique-se.
Quanto à notícia que me dá de que vem cá, para mim a sorte grande. Por mais que eu queira explicar no papel o prazer que sinto com isto, não posso. Não sei escrever; não me acodem as palavras próprias. O Dr. Alberto (o tal!) dizia outro dia que a língua humana é cabal para dizer o que se passa no espírito, mas incapaz de dizer o que vem do coração. E acrescentou esta sentença que é engenhosa, mas velha: com os lábios fala a cabeça, com os olhos o coração.
Você porém adivinhará o que eu sinto e apressará a sua vinda. E o nenê?
Raquel
XII
À MESMA
Corte, 28 de janeiro
(continua...)
ASSIS, Machado de. Ponto de vista. In: ______. Histórias da meia-noite. Rio de Janeiro: Garnier, 1873.