Por Machado de Assis (1866)
JÚPITER, MARTE, VULCANO (os dois de braço)
VULCANO
(a Júpiter)
Sou amigo de Marte, e Marte é meu amigo.
JÚPITER
Enfim! Querelas vãs acerca de mulheres
É tempo de esquecer. Crescem outros deveres,
Meus filhos. Vênus bela a ambos iludiu.
Foi-se, desapareceu. Onde está? quem a viu?
MARTE
Vulcano.
JÚPITER
Tu?
VULCANO
É certo.
JÚPITER
Aonde?
VULCANO
Era um salão.
Dava o dono da casa esplêndida função.
Vênus, lânguida e bela, olhos vivos e ardentes,
Prestava atento ouvido a uns vãos impertinentes.
Eles em derredor, curvados e submissos,
Faziam circular uns ditos já cediços,
E, cortando entre si as respectivas peles,
Eles riam-se dela, ela ria-se deles.
Não era, não, meu pai, a deusa enamorada
Do nosso tempo antigo: estava transformada.
Já não tinha o esplendor da suprema beleza
Que a tornava modelo à arte e à natureza.
Foi nua, agora não. A beleza profana
Busca apurar-se ainda a favor da arte humana.
Enfim, a mãe de amor era da escuma filha,
Hoje Vênus, meu pai, nasce... mas da escumilha.
JÚPITER
Que desonra.
(a Marte)
E Cupido?
VULCANO
Oh! esse...
MARTE
Fui achá-lo
Regateando há pouco o preço de um cavalo.
As patas de um cavalo em vez de asas velozes!
Chibata em vez de seta! - Oh! mudanças atrozes!
Te o nome, meu pai, mudou o tal birbante;
Cupido já não é; agora é... um elegante!
JÚPITER
Traidores!
VULCANO
Foi melhor ter-nos desenganado:
Dos fracos não carece o Olimpo.
MARTE
Desgraçado
Daquele que assim foge às lutas e à conquista!
JÚPITER
(a Marte)
Que tens feito?
MARTE
Oh! por mim, ando agora na pista
De um congresso geral. Quero, com fogo e arte,
Mostrar que sou ainda aquele antigo Marte
Que as guerras inspirou de Aquiles e de Heitor.
Mas, por agora nada! - É desanimador
O estado deste mundo. A guerra, o meu ofício,
É o último caso; antes vem o artifício.
Diplomacia é o nome; a coisa é o mútuo engano.
Matam-se, mas depois de um labutar insano;
Discutem, gastam tempo, e cuidado e talento;
O talento e o cuidado é ter astúcia e tento.
Sente-se que isto é preto, e diz-se que isto é branco:
A tolice no caso é falar claro e franco.
Quero falar de um gato? O nome bastaria.
Não, senhor; outro modo usa a diplomacia.
Começa por falar de um animal de casa,
Preto ou branco, e sem bico, e sem crista e sem asa,
Usando quatro pés. Vai a nota. O argüido
Não hesita, responde: "O bicho é conhecido,
É um gato". "Não senhor, diz o argüente: é um cão".
JÚPITER
Tens razão, filho, tens!
VULCANO
Carradas de razão!
MARTE
Que acontece daqui? É que nesta Babel
Reina em todos e em tudo uma coisa - o papel.
É esta a base, o meio e o fim. O grande rei
É o papel. Não há outra força, outra lei.
A fortuna o que é? Papel ao portador;
A honra é de papel; é de papel o amor.
O valor não é já aquele ardor aceso;
Tem duas divisões - é de almaço ou de peso.
Enfim, por completar esta horrível Babel,
A moral de papel faz guerra de papel.
VULCANO
Se a guerra neste tempo é de peso ou de almaço,
Mudo de profissão: vou fazer penas de aço!
Cena IV
Os mesmos, CUPIDO
CUPIDO
(da porta)
É possível entrar?
JÚPITER
(a Marte)
Vai ver quem é.
MARTE
Cupido.
CUPIDO
(a Júpiter)
Caro avô, como estás?
JÚPITER
Voltas arrependido?
CUPIDO
Não; venho despedir-me. Adeus.
MARTE
Vai-te, insolente.
CUPIDO
Meu pai!...
MARTE
Cala-te!
CUPIDO
Ah! não! Um conselho prudente:
Deixai a divindade e fazei como eu fiz.
Sois deuses? Muito bem. Mas, que vale isso?
[Eu quis
Dar-vos este conselho; é de amigo.
MARTE
É de ingrato.
Do mundo fascinou-te o rumor, o aparato. Vai, espírito vão!
- Antes deus na humildade,
Do que homem na opulência.
CUPIDO
É fresca a divindade!
JÚPITER
Custa-nos caro, é certo: a dor, a mágoa, a afronta,
O desespero e o dó.
CUPIDO
A minha é mais em conta.
VULCANO
Onde a compras agora?
CUPIDO
Em casa do alfaiate;
(continua...)
ASSIS, Machado de. Os deuses de casaca. Rio de Janeiro, 1866.