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#Contos#Literatura Brasileira

Uma Tragédia no Amazonas

Por Raul Pompéia (1880)

"Os motivos que me forçam a isso são as provações que, bem o sei, me esperam nas excursões que tenciono fazer através da imensa porção do Brasil que está ao norte do Amazonas e a elas não quero sujeitar uma natureza débil como a de Otávio... Neste ponto o menino quis falar, mas, vendo o pai continuar, contevese, deixando rolar uma lágrima pela face rosada... O que espero da vossa bondade, devo agora dizer-vos, é unicamente o favor de indicar-me o caminho a tomar para a povoação."

— Sr. Dugarbon, muito mais tenho feito por outros peregrinos; o que o senhor me pede não é um favor, pois que tenho obrigação de o fazer.

"Eu mesma levá-lo-ei, depois que houver ceado, até a embocadura do caminho, que poucos passos separam daqui."

A graciosa Branca falava com a naturalidade franca de uma provinciana brasileira.

— Minha excelente senhora, no meu coração agradecido se perpetuará a lembrança do acolhimento que me dais.

— Ora, não lhe admire isto, senhor, o que faço qualquer outro o faria, venha portanto provar, como o seu Otávio, do que para vós mandei preparar.

Enquanto Branca, a orfãzinha e os dois franceses tomavam assento em volta da mesa de jantar, coberta com uma toalha de linho e alumiada por um lampião de querosene, pois já era noite, cujo abat-jour fazia cair a claridade sobre um assado de carneiro, Silvano, contente, celebrava a recepção de quatro camaradas, companheiros de viagem do francês.

Todos eles deviam se ir munir do necessário em S. João do Príncipe, para continuar a jornada.

Correu a refeição perfeitamente, versando a conversação sobre as maravilhas vistas pelos viajantes.

Otávio e Rosalina tinham travado inocente amizade e, sem que o pai visse, aquele presenteara a esta com um pedacinho de ouro grosseiro, recebendo da menina uma mãozinha de coral que ela costumava trazer ao pescoço.

Já se erguiam da mesa, quando um assobio demorado e forte feriu os ouvidos de todos.

Fez-se absoluto silêncio e cada um se interrogava mudamente.

Branca estava grandemente assustada e o francês aproximou-se, cheio de calma, da janela.

A noite era escura, mas a luz das constelações bastou-lhe para perceber três ou quatro vultos que se chegavam para o cercado.

— Há novidade por aqui, disse, mas nada têm que temer.

— Camaradas! gritou com voz máscula mas serena, fogo naquela direção!

Quatro balas partiram, porém nada lhes respondeu. Fechou-se a janela.

— Minha senhora, disse gravemente Dugarbon, ainda não tive a indiscrição de perguntar-vos se tendes pai ou marido que more convosco mas este incidente me obriga a fazê-lo.

— Correis perigo, esta gente não me parece bem intencionada.

— Aqueles homens que lobriguei são sem dúvida, continuou o francês, bandidos que vos espreitam.

— A mim não, interrompeu a esposa do subdelegado, mas a meu marido.

— Assim pois, sois casada, não?

— Sim senhor, com Eustáquio, subdelegado desta freguesia.

— Podeis dizer-me onde se acha ele, agora?

— Acha-se fora ocupado em investigações sobre um roubo de pouca valia, deve voltar amanhã, se o permitir o céu.

— Tenho, assim, minha senhora, o prazer de comunicar-vos que, antes da chegada do Sr. subdelegado, não deixarei esta casa, para vossa segurança.

Branca, que não encarava sem terror a idéia de uma agressão, aceitou contente.

— Obrigada, disse, do seu caráter não esperava outra cousa, todavia creio que a minha segurança não exige que não repousem o senhor e o seu filho das suas fadigas.

— Aquela alcova é dos viajantes e portanto do senhor. Falando assim apontava para uma porta de vidraças, cobertas com pequenas cortinas de cassa, que, meio-aberta, deixava entrever duas camas, comodamente paramentadas.

O oferecimento foi bem recebido e, desejando a Branca e Rosalina boa noite, os dois peregrinos entraram para o aposento indicado.

Silvano e os camaradas assentaram-se perto da entrada e aí adormeceram.

Com Rosalina recolheu-se a mulher de Eustáquio, não antes de amortecer a chama do lampião, que começou a espalhar pela sala essa luz escura que tanto agrada a Morfeu.

CAPÍTULO III

PRIMEIRAS DESGRAÇAS

No dia seguinte, mal principiava a aurora a derramar suas torrentes de ouro sobre o dorso sinuoso dos cirrus do nascente, já longe da cama estavam todos.

O café fora servido por Silvano, que foi, depois, abrir a porteira.

Quando voltava dois homens saíam da picada, dirigindo-se para a morada de Branca.

Era um Eustáquio, que volvia aos seus penates, e o outro Ruperto, seu escravo.

Depois da explosão de alegria que fez Branca pela volta do esposo foi o francês apresentado a este que não pôde deixar de o abraçar ao saber do interesse que por sua consorte havia mostrado.

Henrique Dugarbon olhou, então, para o oriente.

(continua...)

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