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Memórias da Rua do Ouvidor

Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)

E todavia o Belo Senhor foi curiosa personagem de ontem!...

O capítulo oitavo destas Memórias deve precisa e forçosamente findar aqui; porque eu imagino que a Rua do Ouvidor está se vestindo e se enfeitando para assistir à chegada da família real portuguesa, que de Lisboa embarcara para o Rio de Janeiro, fugindo às águias de Napoleão Bonaparte.

CAPÍTULO 9

Como a 8 de março de 1808 a Rua do Ouvidor assistiu metida nos cantos à passagem da família real portuguesa que nesse dia desembarcou na cidade do Rio de Janeiro: lembra-se o edital do intendente Geral da Polícia o Conselheiro Paulo Fernandes, mandando acabar com rótulas e gelosias dos sobrados. Trata-se da Carta Régia que abriu os portos do Brasil ao comércio das nações amigas, e diz-se como os ingleses foram os primeiros a aproveitar-se dela, e alguns se restabeleceram na Rua do Ouvidor, e refere-se a um episódio da vida do irmão Joaquim, que indica bem o medo que se tinha de Napoleão. Como a Rua do Ouvidor ainda vivia tão modesta, que de 1808 a 1818, período riquíssimo de festas e iluminações, só uma vez foi lembrada; mas sendo ainda festeira de pouca despesa, e nos pomposos espetáculos de 1818, em que se ostentaram soberbíssimos carros de triunfo, ela não se representou nem mesmo em sege de aluguel. Como firmada a paz geral em 1815, e elevado o Brasil a Reino em 1816, entraram neste os franceses como pé direito, vindo engajada para o Rio de

Janeiro uma colônia de artistas, aos quais deveu seu berço a nossa Academia das Belas-Artes. Mostra-se que aflua do Ouvidor não ganhou com a colônia artística, porque não era de franceses, era de francesas que o seu esplendor tinha de provir; e enfim remata-se este capítulo maçante com a tradição veracíssima da primeira francesa que teve nomeada e residência, aliás efêmeras, no Rio de Janeiro.

Vestida de festa e toda adereçada na tarde de 8 de março de 1808 para assistir à entrada da família real portuguesa na cidade do Rio de Janeiro, a Rua do Ouvidor ficou todavia no canto ou nos cantos.

O Príncipe Regente D. João e a família real desembarcaram no cais do Largo do Paço, atravessaram esta praça, seguiram pela Rua Direita, e tomaram pela do Rosário para ir na igreja desta santa invocação, que era ainda então a da Sé apesar de ser a dos pretinhos, render graças a Deus.

Numerosíssimo concurso oficial e popular precedia e acompanhava ao príncipe regente e à família real transmigrantes de Lisboa; multidão imensa estacionava, movia-se, ou precipitava-se curiosa e entusiasmada, e a Rua do Ouvidor antemurada por enchentes de povo nas duas entradas que abre para a Rua Direita teve de ficar nesses dois cantos durante a festiva passagem, e tão no canto se achou, que nenhum dos príncipes indiciou ter idéia da sua existência, voltando para ela os olhos. Todos eles imitando D. João somente demoraram os passos, contemplando a bela igreja da Santa Cruz dos Militares.

É que a Rua do Ouvidor ainda não recebia cartas pelo correio, e só uns três lustros mais tarde começou a fazer bulha na cidade, cabendo-lhe apenas sua partilha no progresso e melhoramentos gerais que a nova capital da monarquia portuguesa recebeu em casta escala nessa época transcendente que, sem o calcular, Napoleão Bonaparte abriu para o Brasil, mandando invadir Portugal.

Assim, logo em 1809 a Rua do Ouvidor; como todas as outras da cidade, melhorou muito o aspecto de suas casas, obedecendo ao edital de 11 de junho, mandado afixar pelo Intendente Geral da Polícia o Conselheiro Paulo Fernandes Viana, ordenando a abolição das rótulas e gelosias dos sobrados.

O Marquês de Lavradio tinha, como já ficou dito, acabado com os peneiros das portas das casas, costume grosseiro, quase selvagem; o Conselheiro Paulo Fernandes, Intendente Geral da Polícia, fulminou as rótulas e gelosias dos sobrados, costume quase bárbaro e de raiz mourisca; nem todos, porém, temeram-se do raio policial; muitas casas resistiram à reforma decretada pela civilização, somente aos poucos foram despedaçando suas rótulas e gelosias, e ainda hoje se conservam, anacrônicos, mas agora curiosíssimos exemplares daquelas casas antigas, por exemplo, em frente à porta principal da alfândega.

Não é perder tempo dar ligeira idéia das tais rótulas e gelosias, sob os pontos de vista material e moral.

(continua...)

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