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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Andanças de uma viola de cabaça

Por Gregório de Matos (1696)

11 Se ela de costas andara,
à fé, que eu a impingira,
à fé, que não me mentira,
nem agora eu me queixara:
se ela me não enganara,
não dera as minhas propostas
respostadas por respostas:
andara, qual sempre andou,
mas pois Eva me enganou
mando, que ande Eva de costas.

SENHOR SOLDADO DONZELO.

1 Senhor soldado donzelo
a quem custa mais fadiga
dormir uma rapariga
do que ganhar um castelo:
se o pistolete é de ourelo
e anda sempre desarmado
crede que sois mau soldado
porque na venérea classe
vai pouco que a velha entrasse
se o moço tivesse entrado.

2 Suponho que o neto entrasse
e viesse logo a avó
tereis vós o vosso nó
e a velha que o desatasse:
se acaso vos assaltasse
na vossa cama, ou retiro
todo um exército em giro
e armado lhe aparecêreis,
vós algum risco corrêreis,
mas daríeis vosso tiro.

3 Assim mesmo conjeturo
nos rencontros de Cupido
trazeis vós o perro enguido
que o tiro eu vo-lo asseguro:
se vós o tivéreis duro
e fôreis fazendo ilhós
nas moças, que estavam sós
à fé que o não taparia
Avó, nem menos a Tia,
dez Tias, nem trinta Avós.

4 Vós conversando, ela rindo
se perde do logro a era:
que importa que a Avó viera
se vós vos tivéreis vindo?
Como estais sempre cumprindo
com cerimônias cruéis,
por isso sois, e sereis
(perdendo contentamentos)
um homem de cumprimentos
porém nunca cumprireis.

5 Dizem, que quem perde o mês,
contudo não perde o ano,
mas neste caso magano
perde o ano quem perde a vez:
já vós, por seres má rês,
perdestes noutra hora a sorva:
sempre achais, quem vos estorva,
e perdestes, a ocasião,
sem que houvesse velha então,
que vos mijasse na escorva.

6 Amigo, a pura verdade
é que a velha do socrócio
não desfez este negócio;
bem o faz a mocidade:
culpai vossa frialdade
que a velha não fez o dano,
e senão, por desengano,
e contra o mal das Avós
tomai cantárida em pós
ou metei-vos franciscano.

DESPEDIDA EM CANTIGAS AMOROSAS QUE FAZ A HUMA DAMA QUE SE
AUSENTAVA.

Já vos ides, ai meu bem!
já de mim vos ausentais?
morrerei de saüdades,
se partis, e me deixais.

É forçoso este argumento,
tem conclusão infalível,
ires vós, e ficar eu,
meu amor, com é possível?

Meu amor, sem vós não sei,
como poderei ficar,
se vós partis, morrerei
ao rigor do meu pesar.

Esperai detende o passo,
que cada arranco, que dais,
sendo a vida da minha alma,
alma, e vida me levais.

Ó que rigoroso transe,
e saudosa despedida!
já sinto efeitos da morte
com os efeitos da vida.

Lágrimas aljofaradas,
como assim vos despenhais,
sem atender tiranias,
nem atender a meus ais.

Adeus de mim muito amada
Prenda, que me dais mil dores,
como mais não hei de ver-vos,
adeus, adeus, meus amores.

A DOMINGOS NUNES DO COUTO VIZINHO DO POETA A QUEM BURLARAM HUNS
AMIGOS FINGINDO-SE OFFICIAIS DE JUSTIÇA, E BATENDO ESTRONDOSAMENTE
NA PORTA, ELLE COMO CRIMINOSO FUGIO PELO QUINTAL FAZENDO, E
PADECENDO TUDO, O QUE O POETA PINTA.

1 Ontem sobre a madrugada
à porta do meu vizinho
foi bater certo meirinho
com toda a justiça armada:
o vizinho à matinada
de tão grande rebuliço,
quis logo erguer o toutiço,
mas não deu passo o coitado,
que ficou embasbacado,
porque era tudo feitiço.

2 A um bater tão porfiado,
que ele atento porfiou,
quando se desenganou,
então foi mais enganado:
cuidou, que era já tomado
da Justiça, que madruga:
ergue-se, dizendo esbruga,
e tendo por justa causa
cantar-lhe a turba sem pausa,
lhe quis responder com fuga.

3 "Cerca, cerca o aposento",
e apenas ele ouviu tal,
tinha varado o quintal
a sua pá como um vento:
achou por impedimento
espinhas de um limoeiro,
um bosque, um tronco, um madeiro,
e tudo isto quanto achou,
um só Nunes arrastou,
como se fora um Ribeiro.

4 Com tanto medo no rabo
o levou com mil pesares
a Justiça pelos ares,
como se fora o diabo:
achando-se já por cabo
no mar entre mil cardumes,
hoje faz muitos queixumes
aos fratelos, e fratelas,
de que tem dor de canelas,
sem ninguém lhe dar ciúmes.

5 Sobre isto teima, e porfia
da dor entre os desatinos,
que com tão maus Teatinos
não quer fazer companhia:
que de noite, nem de dia
há de ir aos homiziados,
e a mais que venham soldados,
antes ir preso se atreve
do que por culpa tão leve
sofrer brincos tão pesados.

(continua...)

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