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#Crônicas#Literatura Portuguesa

Crónicas de Londres

Por Eça de Queirós (1940)

Além disso, Chipka domina toda a região de Grabova, onde vivem nas aldeias cristãs alguns milhares de búlgaros; estes interessantes eslavos, quando viram os Russos senhores de Chipka e se julgaram implicitamente vitoriosos, apressaram-se a destruir a população turca pelo processo sumário de queimar os homens em fogueiras, violar as mulheres até à morte e degolar corajosamente as crianças. Ora se os Russos se retiram de Chipka e os Turcos a ocupam, tornando-se senhores da região, é evidente que farão passar aos búlgaros um quarto de hora desagradável, o que, no fundo, é odiosamente justo. Portanto, os Russos, sustentando-se em Chipka, procuram salvar os búlgaros desta temerosa represália; se tanto é que esta consideração humanitária é bastante para explicar a resistência russa.

Mas, os amigos dos Russos explicam-na assim, e e lisonjeiro para a humanidade que essa seja a razão exacta.

Mas porque atacam os Turcos a passagem de Chipka? Que lhes importa que três mil homens ocupem sem utilidade e sem vantagem aquele vale? Se Suleiman Paxá se quer vir juntar do lado de cá dos Balcãs com Osmand Paxá, porque não atravessou por alguma das outras passagens que estão livres, em lugar de escolher justamente aquela que os Russos ocupam? E se não queria deixar atrás de si aquele núcleo de força inimiga, porque não fez cercar as posições russas em lugar de as atacar? Quatro ou cinco mil turcos em redor de Chipka, bem fortificados e ocupando as alturas, seriam bastantes para terem os Russos inúteis e fechados, como pássaros numa gaiola. Mas não; ataca Chipka e perde já perto de vinte mil home_______________________________ns naquela tentativa insensata. Pergunta-se geralmente: porquê?

Eu estou habilitado a dar a minha interpretação; não a garanto, mas foi-me revelada por pessoa que está muito informada da política miúda e das intrigas de Constantinopla. Suleiman Paxá atacou Chipka porque isso lhe foi ordenado pelo sultão. Esta batalha monstruosa, em que já morreram vinte mil turcos, não foi decidida num conselho de guerra, foi resolvida no serralho. Desde que o general Gurko ocupou há um mês Chipka, passando os Balcãs, entrando na Romélia e fazendo pisar assim às tropas russas o solo sagrado da Turquia turca, um terror pueril mas indominável apossou-se do sultão.

Via já os Russos em Constantinopla, os seus palácios do Bósforo saqueados, o serralho disperso e vendido a retalho pelos mercados da Pérsia e da Arábia, ele mesmo talvez prisioneiro na Sibéria. Debalde o corpo diplomático e ministros o tranquilizavam: o seu terror crescia todos os dias, excitado pelo pavor das mulheres. Realmente é difícil que um sultão se conserve a sangue-frio, sentindo em roda de si os gemidos de angústia, os gritos de medo das suas três mil concubinas! Um coro lacrimoso de mulheres soluçantes amolece o temperamento mais resistente. Uma bela manhã o sultão declara que abandonava Constantinopla e que se ia refugiar na Ásia, em Brussa; esta resolução tinha-lhe sido inspirada por Mahmed Paxá, o seu favorito, um intrigante tortuoso e covarde, que domina pelas mulheres e que representa na política turca o verdadeiro elemento asiático – a intriga do serralho. Os ministros, o divan, ficaram aterrados com esta resolução fantástica, e iam empregar talvez meios extremos de coerção, quando a vitória de Plevna, a vitória de Lochta, a vitória do rio Lon, sobretudo a retirada do general Gurko, vieram dar um certo alento ao sultão: desfizeram-se as malas momentaneamente; mas o serralho conservou um terror oculto daqueles três mil ou quatro mil homens que tinham ficado em Chipka, que eram uma ameaça permanente, e com a mão do inimigo ainda estendida para Constantinopla.

À maneira que os dias decorriam e que aquela força se ia mantendo em Chipka, impassível e teimosa, a inquietação no serralho crescia. Chipka tomou-se um pesadelo: aqueles malditos regimentos estabelecidos às portas da Romélia e comendo tranquilamente o seu rancho traziam o palácio numa atroz irritação nervosa. Porque se não iam também? Que faziam ali com os seus olhos azuis de eslavos fitos em Constantinopla?

Por fim, o sultão e o serralho perdiam o sono, o apetite, o gozo tranquilo dos prazeres do amor. Aquilo não podia durar. E uma manhã o sultão escrevia directamente a Suleiman: que fizesse todos os sacrifícios, abandonasse todos os planos, mas que lhe sacudisse aqueles russos de Chipka, para ele poder, enfim, dormir, comer e saborear os encantos do sentimento. E ai está porque já lá vão vinte mil turcos – para acalmar os nervos do sultão!

Esta batalha de Chipka deu lugar ao maior feito jornalístico de que há memória – o telegrama do correspondente do Daily News, o célebre jornal de Londres.

(continua...)

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