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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

Eu não digo, quando se tem já uma posição na sociedade e alguns vintens de lado, que não seja bonito poder produzir um bom acrostico, ou, sem malicia, um engraçado epigramma *l. . Mas fazer da poesia a principal occupação, não ! Desculpeme o gnr. Corvello, mas é uma grave imprudencia e ha-de concorrer para o desviar dos seus deveres !

Arthur empallidecia de raiva.

Só na tia Sabina encontrava sympathia. Essa, desde a descoberta do caderno dos Esmaltes e Joias, parecia estimal-o mais, como se a habilidade poetica fosse uma evidencia da ternura da alma. Um dia, mesmo, quando ella estava arranjando o seu gavetão, a doce velha tirou d'entre um livro d'oragões um papel amarellado, de dobras muito gastas e com mysterio pediu-lhe que o lesse : mas baixinho !

Eram versos, versos á tia Sabina, versos datados do Porto, de 1841 !

Eis chegado o momento de partir,

Dôr e luto se apossam do meu sêr ;

Longe dc ti, ó anjo feiticeiro,

A vida é treva, não posso viver

E hav{a doze quadras n'este estylo, trabalhadas ao gosto do tempo, mistürando fanatismos d'amor e palpites de morte ás melaneolias do outomno e ás tristezas da separação.

Arthur disse, sorrindo, n'uma complacencia de mestre amavel :

— São bonitos, tia Sabina, estão bem feitos . . . A velha dobrou silenciosamente o papel :

E eram verdade n'esse tempo, filho. — murmurou por fim. — Quando a gente é nova !

Arthur teve vontade de a abraçar ! O seu acanhamento reteve-o. Mas estimou-a mais desde então : quasi desejava contar-lhe as suas melancolias e as suas ambições ; mas vendo-a depois, á noite, cabecear com somno sobre a mesa, ou, na sombra do Oratorio, enfiando Salvé-Rainhas, sentia que a pobre velha não o comprehenderia.

Agora, incessantemente, anciava por alguem com quem desabafar ! Desejaria lêr os seus versos, aquecer-se a uma admiração amiga, fallar dos seus poetas queridos, d'enthusiasmosj d'aspiragões revolucionarias. Mas ó casa das tias só vinham os Vascos, e a botica era frequentada apenas por um velhote caturra e obsoleto, o Sequeira, e por um proprietario, o Abreu, que todas as tardes, apoiado ao castao da bengala, murmurava sombriamente as mesmas palavras : Então que ha de politica As cousas vão mal, as cousas vão mal . . . » Na Villa, havia, na verdade, dous moços bachareis, mas Arthur não os conhecia : eram da Assembleia, das famosas soirées das Carneiros, que todos os sabbados faziam brilhar na praga escura as tres sacadas nobreg da sua casa, Muitas vezes, passando por lá, considerava-as com azedume, pensando como lhe seria facil captivar alh as senhoras, secitando, tendo ditos poeticos. Mas excluiam-n'o d'aquella sociedade brilhante a obscuridade das tias e a sua posição subalterna na pharmacia ; consolava-se então, pensando que seria aquelle um mundo burguez, occupado das intrigas da Villa, indifferente á arte e incapaz de sentir em concordancia com elle. Mais valia a sua solidão d'alma incomprehendida.

Porém, nas noites em que se sentia sem veia D, quando odiava os livros como se a sua esterilidade lhe tornasse antipathica a abundancia dos eloquentes — aquelle isolamento completo amargurava-o como um desterro n'uma rocha deserta. A nostalgia de Coimbra, das cavaqueiras poeticas do Cenaculo, d'aquella vida intensa que lhe parecia agora sublime, voltava-lhe mais pungente; e avido de poetas e de pililosophos, tinha de vir sentar-se entre as tias, fazendo as suas meias somnolentas, e o Albuquerquezinho, compenetrado, elaborando paciencias ou revistando o album das esquadras. Se ao menos tivesse uma irmã intelligente e poetica ! Fazia-o suspirar, cerrar os olhos, a idéa d'uma mulher d'alma romantica, que o amasse, recenesse, reconhecida, a revelação das suas sensibilidades e para o acalmar lhe soubesse tocar ao piano melodias de Weber ou arias de Mozart !

Foi esta necessidade de convivencia litteraria que o levou, de certo, a ligar-se com um sujeito da Villa, apesar d'haver entre ambos um contraste radical de temperamento, de gostos e de comprehensão da Aida. Chamavam-lhe em Oliveira d'Azemeis o Ra8



(continua...)

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