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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

Gonçalo engrolou um murmúrio risonho - porque não se recordava da espada, nunca recomendara a lâmpada. Mas Sanches Lucena, agora, suplicava um precioso favor ao Sr. Gonçalo Mendes Ramires. E era que V. Exa. lhe concedesse a honra de o conduzir na carruagem à Torre... Alvoroçadamente Gonçalo recusou. Nem podia! combinara com o homem da perna dorida esperar ali, na Bica, pela sua égua.

- Mas fica aqui o meu trintanário, que leva a égua de V. Exa. à Torre.

- Não, não, se V. Exa. me permite, eu espero... Depois meto pelo atalho da Crassa, porquetenho às oito horas na Torre, à minha espera para jantar, o Titó.

D. Ana, do meio da estrada, apressou logo o marido sacudidamente, com a ameaça renovada da friagem, do relento... Mas, junto da caleche, Sanches Lucena ainda emperrou para afirmar a Gonçalo, com a descarnada mão sobre o encovado peito, que aquela tarde lhe ficava célebre...

- Porque vi uma coisa que poucas vezes se terá visto: o maior Fidalgo de Portugal, a pé pelaestrada de Corinde, levando à rédea no seu próprio cavalo um cavador de enxada!

Ajudado por Gonçalo, trepou enfim pesadamente ao estribo. D. Ana já se enterrara nas almofadas, alçando entre as mãos, como uma insígnia, o cabo rebrilhante da luneta de ouro. O trintanário também se entesou, cruzou os braços: e a caleche aparatosa, com as manchas brancas das redes dos cavalos, mergulhou no silêncio e na penumbra da estrada, sob a espalhada ramaria das faias.

- Que maçada! - exclamou Gonçalo. E não se consolava de tarde tão linda assim desperdiçada... Intolerável, esse Sanches Lucena, com o Sr. D. Fulano e o Sr. D. Sicrano, e a sua gula de "roda fina", e "tudo dele" por colina e vale! A mulher, esplêndida peça de carne, como filha de carniceiro - mas sem migalha de graça ou alma. E que voz, Jesus, que voz! Gente pedante e sabuja... E agora só desejava recuperar a sua égua, galopar para a Torre, e desabafar com o Titó, familiar da Feitosa!, o seu asco por toda aquela Sancharia.

A égua não tardou, a trote largo, montada pelo filho do Solha, que, ao avistar o Fidalgo, saltou à estrada, de chapéu na mão, encouchado e encarnado, balbuciando que o pai chegara bem, pedia a Nosso Senhor lhe pagasse a caridade...

- Bem, bem! Recados a teu pai. Que estimo as melhoras. Lá mandarei saber.

Num pulo montara - galopava pelo fácil atalho da Crassa. Mas, diante do portão da Torre, encontrou um moço do Gago, com um bilhete do Titó, anunciando que não podia jantar na Torre porque partia nessa semana para Oliveira!

- Que disparate! Para Oliveira também eu parto; mas janto hoje! Até combinávamos, o levava nacarruagem... Ele que ficou a fazer, o Sr. D. Antônio?

O rapaz coçou pensativamente a cabeça:

- O Sr. D. Antônio passou lá por casa para eu trazer o bilhete ao Fidalgo... Depois, creio que temfesta, porque entrou defronte no tio Cosme fogueteiro, a comprar bichas de rabear...

Aquelas inesperadas bichas de rabear causaram logo ao Fidalgo uma imensa inveja:

- E onde é a festa, sabes?

- Eu não sei, meu Fidalgo... Mas parece que é coisa rija, porque o Sr. João Gouveiaencomendou lá ao patrão dois grandes pratos de bolos de bacalhau.

Bolos de bacalhau! Gonçalo sentiu como a amargura de uma traição:

- Oh! que animais!

E de repente ideou uma vingança alegre:

- Pois se vires hoje o Sr. D. Antônio ou o Sr. João Gouveia não te esqueças de lhes dizer que sinto muito... Que eu também cá tinha à noite na Torre uma festa. E havia senhoras. Vinha a Sra. D. Ana Lucena... Não te esqueças, hem?

Gonçalo galgou as escadas rindo da sua invenção. Mas, nessa noite, às nove horas, depois do arrastado e atochado jantar com o Manuel Duarte, entrou na sala grande dos retratos, apenas alumiada pelo lampião dourado do corredor, para buscar uma caixa de charutos. E casualmente, através da janela aberta, reparou num homem que, embaixo, rente da sombra dos álamos, rondava, espreitava... Mais atento, imaginou reconhecer os poderosos ombros, o andar bovino do Titó. Mas não, com certeza! o homem trazia jaqueta e carapuço de lã. Curioso, abafando os passos, ainda se abeirou da varanda. O vulto porém descera da estrada, logo sumido sob as árvores duma quelha que contorna o Casal do Miranda, e desemboca adiante, na Portela, junto das primeiras casas de Vila-Clara.

IV

O palacete dos Barrolos em Oliveira (conhecido desde o começo do século pela Casa dos

(continua...)

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