Por Camilo Castelo Branco (1862)
Seriam as jóias, seriam, meu amigo... É certo que meu marido em dois anos dissipou tudo, tudo. As inscrições vendeu-as; o resto dos braceletes, anéis, cadeias, relógios, tudo com razão ou sem ela, com violência ou brandura, me levou de casa. Restavam-me os móveis, quando, depois de esperar três dias por Augusto, recebi dele uma carta em que me dizia adeus para sempre. Não sei se saiu do País, se se matou. Há três anos que o não vi, nem seus condiscípulos tiveram novas dele.
Ficaram comigo três irmãs, e minha mãe em sua casa, vivendo da mesada que eu lhe dera até ao fim, já quando a furtava à boca e à decência do vestir. Chamei minhas irmãs, que eram já mulheres, e disse-lhes que era necessário morrermos todas. Ouviram-me espavoridas. Disse-lhes que a morte era simples e rápida se acendêssemos dois fogareiros num quarto e fechássemos portas e janelas. Lançaram-se a mim a chorar. Não queria morrer.
Fui vendendo a roupa e os móveis. Perto estava já o dia da fome irremediável, quando fui convidada a procurar em determinada casa um homem que desejava tirar-me da miséria. A encarregada deste convite era uma mulher que tinha estabelecimento público de infâmia. Fui?... Fui... meu amigo, porque minhas irmãs tinham vendido na véspera as suas camisas e minha mãe já três vezes tinha vindo à minha porta pedir esmola com um ar de zombaria que me espedaçava. Apenas conheci a casa em que estava, quis fugir; mas fui estorvada pelo homem que me chamara. Era um amigo do barão.
Voltei a casa com uma peça de ouro e escondi de minhas irmãs a ignomínia daquele dinheiro. Inventei uma história, fiz o elogio da generosidade dum benfeitor, e minhas irmãs, erguendo as mãos a Deus, pediram-lhe a saúde dele. Então ri-me... riso atroz!... creio que me ri da Providência... e, a falar a verdade, não sei bem do que me ri...
Calou-se Marcolina, obrigada pela tosse e pelo vômito de sangue. Amparei-lhe a fronte nas minhas mãos; esperei que sossegasse e disse-lhe:
- E as lágrimas?... Tinhas-me dito que chorarias, infeliz!...
Pois não vê as lágrimas no sangue? - disse ela, sorrindo. - Os olhos já não as têm. - Não quero ouvir mais - tornei eu.
- Não tem mais que ouvir... O que falta é...
- A duração da desgraça com um só meio de remediá-la...
- Decerto...
- Que fazias ontem no Cais do Sodré?
- Pedia coragem ao meu demónio para me matar; mas vi minhas irmãs, ou o demónio mas mostrava, para que o meu inferno se não acabasse.
- Basta. Esta noite partiremos para Lisboa. Confias de mim o teu destino e o de tuas irmãs? - disselhe eu, sem calcular o cargo que me impunha e pensando apenas na quantia que podia dispor.
Marcolina sorriu-se e disse: - Que generosa alma a sua! Não sabe em que mundo está!...
IX
Poucos dias depois da minha volta de Sintra, as três irmãs de Marcolina entraram num recolhimento, a título de minhas parentas.
Marcolina saiu de Lisboa comigo e entrou em minha casa na província. Era já morta minha mãe. Os meus vizinhos escandalizaram-se de me verem em concubinagem, e o pároco da freguesia deixou de me visitar, e o boticário proibiu as filhas de me falarem, e o regedor recomendou à mulher que não fizesse conhecimento com a lisboeta, que tinha cara de pecado.
A minha aldeia é penhascosa, feia e triste. Marcolina amava os rochedos, e as sombras das matas, e ajoelhava às cruzes que encontrava nas veredas por onde andava sozinha, e dobrava-se rente com o chão para beber das fontes térreas em que borbulhava a água. Retingiram-se-lhe as faces e cessou algum tempo a tosse. Já subia comigo aos píncaros das serras, quando eu caçava; trazia ao tiracolo a saca de malha com a merenda, e por lá, naqueles vales, onde os medronheiros e avelãzeiras vinham a terra com frutos, era de ver as delícias com que ela comia, por igual comigo, as grosseiras iguarias que levávamos.
Entrou o Outono, e logo notei a desmedrança e abatimento de Marcolina. A decomposição parece que se via, como se os vermes lhe andassem roendo já perto da epiderme. Quis voltar com ela a Lisboa; mas achei-a pertinaz em não sair da aldeia. Dizia-me que fosse eu distrair-me e que a deixasse ali acabar os seus dias.
Poucos tinha ela já de vida, quando a mais velha das irmãs lhes escreveu contando que o pai voltara rico de África e pusera anúncios nos jornais indagando notícias de sua mulher e filhas. Dizia mais que ele fora ao recolhimento e chorara de alegria vendo-as; mas logo se enfurecera quando elas lhe falaram da mãe. Acrescentava que ele, sabendo que devia à enteada o refúgio de suas irmãs, estava ansioso por vê-la, e pedia-lhe que voltasse imediatamente a Lisboa.
Esta carta deu delírios de júbilo a Marcolina. Fez por vigorizar-se para a jornada, não tanto para testemunhar a felicidade das irmãs como para pedir ao padrasto que não desamparasse sua mulher. A esperança apagou-se súbita, quando preparávamos a partida. Fui, uma tarde, à vila próxima comprar alguns aprestos para a jornada, e quando voltei estava Marcolina nos últimos arrancos. Agitou-se vertiginosamente quando me viu: apertou-me ansiosamente contra o coração e murmurou:
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Coração, Cabeça e Estômago. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1781 . Acesso em: 28 jun. 2026.