Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Salvação

Por Camilo Castelo Branco (1864)

"A fugir de mim mesmo, ia abrigar-me sob os olhos de Mafalda. Ela via nos meus olhares a submissão imploradora e não entendia a cobarde procedência daquele fitá-la com tanta brandura. Apreciou-me erradamente. Teve-se em conta de amada. E, quando eu mais atormentado pelejava com a visão de Leça e da alameda das Caldas, Mafalda reavia do Céu os júbilos de outros dias e a púrpura do rosto. A compadecida amargura com que eu a fitava afigurara-se à ingénua menina a expressão do amor contemplativo, como ela o sentira e escondera sempre de todos, salvo de seu pai.

"Minha mãe, a ocultas da sobrinha, perguntava-me a respeito dela coisas, cujo fito estava posto no casamento. Eu respondia a verdade, como se Deus necessitasse interrogar a minha consciência. Mostrava receios de ter desbaratado as flores do coração, ao apuro de não ter já virtudes que me fizessem um digno esposo dela. Minha mãe não podia entender-me; obrigava-me suavemente a explicações e, ouvindo-me, dizia soluçante: "Não se quebrou ainda o fatal encantamento!... Deus te salve, meu desgraçado filho!"

"A quarenta passos de distância de minha casa está uma cruz de pedra tosca, sobre uma peanha de cantaria. A esta cruz se referia Teodora na carta que leste. Quando ela tinha seis anos, esteve com sua mãe uma temporada em nossa casa, e voltou ali aos nove. Algumas vezes nossas mães se sentaram nos degraus do cruzeiro enquanto nos, com vergônteas floridas de acácias e árvores de fruta, tecíamos uns desajeitados festões que pendurávamos dos braços da cruz.

"Levou-me para lá o coração dez anos depois. Sentei-me na peanha da cruz. Acaso relanceei os olhos pela pedra, que lhe formava o soco, e vi letras. Reparei, e reconheci os caracteres de Teodora. Eram duas datas: 5 de Junho de 1848, com a assinatura inicial T. P. Seguia-se a outra, em letras mais de fresco: 10 de Setembro de 1849, com as mesmas iniciais, e as seguintes palavras: Aqui veio orar a alma penada.

Eu estava então em 15 de Setembro daquele ano. Cinco dias antes, pois, aí tinha estado Teodora.

"Recolhi-me com febre. A celestial graça de Mafalda, que me saiu ao tope da escada, respondi com uma afectuosidade falsa. Importunava-me o anjo. Eu queria então uma orgia infernal. Queria arder e palpitar no deleite sequioso, que zomba dos deveres, e insulta o espantalho da moral, impassível carrasco das organizações ardentes. O aspecto mavioso de Mafalda era uma lança que me traspassava. Fugi-lhe e, por alguns dias, raras horas nos encontrámos.

"Voltei novamente ao cruzeiro. Do braço esquerdo da cruz pendia uma coroa de flores do campo; e, na base, inscrita outra data: 20 de Setembro de 1849. - Meia-noite. - O sol da manhã queimará as flores; mas o braço da cruz redentora permanecerá aberto para os desgraçados. - T. P. "Eu queria esconder de minha mãe estas inscrições, feitas a lápis. Embebi um lenço em água e desfi-las. Hei-de agora confessar-te que a pertinácia de Teodora, por algumas horas, me pareceu ridícula."

- Também a mim me está parecendo isso, ainda agora - observei eu, animado pela confissão da pessoa menos idónea para embicar no irrisório romanticismo da esposa de Eleutério Romão dos Santos.

- Mas - prosseguiu Afonso de Teive - esta judiciosa critica, no dia seguinte, converteu-se em piedade...

- Em amor - atalhei.

- Amor, sim, amor indomável, amor faminto de vê-la e de ouvi-la, de chorar com ela, de arrebatá-la ao marido, e insultar a sociedade e Deus na posse dela.

"Esporeava-me este desígnio, quando entrei em casa. Minha prima estava na primeira sala. Ergueu-se. Tomou-me com brandura a mão, levou-a ao coração arquejante, e disse-me: "Os braços da cruz redentora estão sempre abertos para os desgraçados. As palavras, embora escritas por mão criminosa, são santas. Meu pobre Afonso, já que ela te deu a desgraça, aceita-lhe também o conselho." Beijou-me a palma da mão e saiu da sala.

"Mafalda tinha visto, primeiro que eu, as palavras de Teodora. Compreendera o mistério, resistira ao ímpeto de as tirar, e, desde aquela hora, prometera a Deus exercitar todos os recursos de seu coração para me acautelar das cavilações da mulher ardilosa.

"Que poderia fazer a simples criatura? O infinito das forças humanas fez ela em meu resgate; mas muito já por noite dentro de minha vida lhe havia de conceder o Céu um pleno domínio em minha razão.

"Logo ao outro dia, Mafalda pediu-me que saísse com ela a um passeio longe por esses pinhais fora ao mosteiro de Landim.

""Sozinhos?", lhe perguntei. "Porque não? Sozinhos, com os nossos anjos-daguarda e o coração de tua mãe connosco, meu querido Afonso."

"Saímos. Mafalda ia taciturna. De encontro ao meu braço direito batia-lhe o coração com celeridade irregular. E eu sentia um enleio, uma constrição de alma, que não atinava com os termos comuns de uma palestra entre dois primos. No alto de um cerro, de onde havíamos de descer para umas veigas, Mafalda sentou-se e abrangeu com os olhos lagrimosos a redondeza dos horizontes. Perguntei-lhe que razão tinha para chorar. Respondeu-me que a mortificava a ideia de me ver ir talvez para sempre do lado de minha mãe e dos parentes que me estremeciam.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...2728293031...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →