Por Machado de Assis (1891)
-Não, não preciso. Obrigado. Tenho que propor um negócio, mas há de ser mais demoradamente. Vim vê-lo para não botar anúncios nos jornais"Desapareceu um amigo, por nome Rubião, que tem um cachorro..."
Rubião gostou da facécia. Palha saiu e ele foi acompanhá-lo até a esquina da Rua Marquês de Abrantes. Ao despedir-se prometeu visitá-lo em Santa Teresa, antes de ir a Minas.
CAPÍTULO LX
POBRE MINAS! Rubião voltou para casa, sozinho, a passo lento, pensando no modo de lá não ir agora. E as palavras dos dous andavam-lhe no cérebro, como peixinhos de ouro em globo de vidro, abaixo, acima, rutilantes"aqui é que se deve esmagar a cabeça da cobra"; - "Sofia é companheira para estas viagens". Pobre Minas!
No dia seguinte recebeu um jornal que nunca vira antes, a Atalaia. 0 artigo editorial desancava o ministério; a conclusão, porém, estendia-se a todos os partidos e à nação inteira Mergulhemos no Jordão constitucional. Rubião achou-o excelente; tratou de ver onde se imprimia a folha para assiná-la. Era na Rua da Ajuda; lá foi, logo que saiu de casa, lá soube que o redator era o Dr. Camacho. Correu ao escritório dele.
Mas, em caminho, na mesma rua
-Deolindo! Deolindo! bradou angustiadamente uma voz de mulher à porta de uma colchoaria.
Rubião ouviu o grito, voltou-se, viu o que era. Era um carro que descia e uma criança de três ou quatro anos que atravessava a rua. Os cavalos vinham quase em cima dela, por mais que o cocheiro os sofreasse. Rubião atirou-se aos cavalos e arrancou o menino ao perigo. A mãe, quando o recebeu das mãos do Rubião, não podia falar; estava pálida, trêmula. Algumas pessoas puseram-se a altercar com o cocheiro, mas um homem calvo, que vinha dentro, ordenou-lhe que fosse andando. O cocheiro obedeceu. Assim, quando o pai, que estava no interior da colchoaria, veio fora, já o carro dobrava a esquina de São José.
-Ia quase morrendo, disse a mãe. Se não fosse este senhor, não sei o que seria do meu pobre filho.
Era uma novidade no quarteirão. Vizinhos entravam a ver o que sucedera ao pequeno; na rua, crianças e moleques espiavam pasmados. A criança tinha apenas um arranhão no ombro esquerdo, produzido pela queda.
-Não foi nada, disse Rubião; em todo caso, não deixem o menino sair à rua; é muito pequenino.
-Obrigado, acudiu o pai; mas onde está o seu chapéu?
Rubião advertiu então que perdera o chapéu. Um rapazinho esfarrapado, que o apanhara, estava à porta da colchoaria, aguardando a ocasião de restituí-lo. Rubião deu-lhe uns cobres em recompensa, cousa em que o rapazinho não cuidara, ao ir apanhar o chapéu Não o apanhou senão para ter uma parte na glória e nos serviços. Entretanto, aceitou os cobres, com prazer; foi talvez a primeira idéia que lhe deram da venalidade das ações.
-Mas espere, tornou o colchoeiro, o senhor feriu-se?
Com efeito, a mão do nosso amigo tinha sangue, um ferimento na palma, cousa pequena; só agora começava a senti-lo. A mãe do pequeno correu a buscar uma bacia e uma toalha, apesar de dizer o Rubião que não era nada, que não valia a pena. Veio a água; enquanto ele lavava a mão, o colchoeiro correu à farmácia próxima, e trouxe um pouco de arnica. Rubião curou-se, atou o lenço na mão; a mulher do colchoeiro escovou-lhe o chapéu; e, quando ele saiu, um e outro agradeceram-lhe muito o benefício da salvação do filho. A outra gente, que estava à porta e na calçada, fez-lhe alas.
CAPÍTULO LXI
-QUE É QUE TEM aí na mão? inquiriu Camacho, logo que Rubião entrou no escritório.
Rubião narrou o incidente da Rua da Ajuda. O advogado fez-lhe muitas perguntas sobre a criança, os pais, o número da casa; mas, o próprio Rubião pôs termo às respostas.
-Não sabe, ao menos, o nome do pequeno?
-Ouvi chamar Deolindo. Vamos ao que importa. Venho assinar a sua folha; recebi um número, e quero contribuir para...
Camacho acudiu que não precisava de assinaturas. Em assinaturas a folha ia bem. O que ela precisava era de material tipográfico e desenvolvimento no texto; ampliar a matéria, pôr-lhe mais noticiário variedades, tradução de algum romance para o folhetim, movimento do porto, da praça, etc. Tinha anúncios, como viu.
-Sim, senhor.
-Estou com o capital quase subscrito. Bastam dez pessoas, e lá somos oito; eu e mais sete. Faltam dous. Com mais duas pessoas está completo o capital.
-Quanto será? pensou Rubião.
Camacho batia com um canivete na beira da escrivaninha, calado olhando às furtadelas para o outro. Rubião passou uma vista à sala, poucos móveis, alguns autos sobre um tamborete ao pé do advogado, estante com livros, Lobão, Pereira e Sousa, Dalloz, Ordenações do Reino, um retrato na parede, diante da escrivaninha.
-Conhece? disse Camacho apontando para o retrato.
-Não, senhor.
-Veja se conhece.
-Não posso saber. Nunes Machado?
-Não, acudiu o ex-deputado dando à cara um ar pesaroso. Não pude obter um bom retrato dele. Vendem-se aí umas litografias que me não parecem boas. Não, aquele é o marquês.
-De Barbacena?
(continua...)
ASSIS, Machado de. Quincas Borba. Rio de Janeiro: Garnier, 1891.