Por Coelho Neto (1890)
Mas fecharam-se as três na sala de jantar e Dona Ana bramiu através da porta:
— Rua! Amanhã mesmo!
— Ouça, Dona Ana, disse o romancista, muito calmo.
— Não quero saber de histórias. Rua! Estou farta! Não dou mais comida!
Arranjem-se!
— Isso é natural, Dona Ana. Ouça-me.
— Qual natural! Entreabriu a porta e, mostrando pela fresta o seu imenso nariz, esgoelou: O senhor acha que uma pouca-vergonha como essa é natural? Que hão de dizer os vizinhos? Que isto aqui é uma casa de deboche e que eu e minha filha somos vagabundas como essas que estão aí. Não! Rua! Amanhã mesmo... Ponham os cacos lá fora! Não dou mais comida...! Quero alugar a minha casa a gente séria.
O rumor ia em crescendo formidável. Uma mulher pôs-se a berrar:
Minha bela Florentina Sol de amor que minh'alma ilumina...
— Mas ouça, Dona Ana... O romancista tentou abrir a porta, mas a viúva rugiu:
— Eu estou em menores... Saia para lá homem!
— Ouça, Dona Ana. Realizou-se hoje o ensaio geral da minha peça e os rapazes querem fazer-me uma manifestação. Está por demais ruidosa, concordo, mas é natural... Todas as manifestações são, mais ou menos, ruidosas. O caráter da manifestação, quando é sincera, é o ruído. Não se zangue. De repente a tranca caiu com estrondo e uma horda arremessou-se para a escada com luminárias bradando:
"Viva Dona Ana! Viva a dinamite que é o princípio da igualdade humana...! Vivaa!" E uma voz espremida esganiçou: — Vii... mas não concluiu. Ouviu-se o espoucar de uma garrafa nos degraus da escada.
— Desastrado! Como é que abres mão da felicidade? — exclamou o Neiva vendo o Lins estupefato diante dos cacos da garrafa, com os pés num córrego espumante.
— É a primeira vez que o vinho me desce aos pés, disse o poeta lastimosamente. E o bando precipitou-se em tumulto, escada acima.
Era uma invasão. Rompia a marcha Anselmo que fora abrir a porta dando os braços à Amélia e a uma rapariga tímida que atordoada, com um sorriso imbecil nos lábios descorados. Seguiam-se o Neiva, com um grande embrulho; o Lins com uma bojuda garrafa; Duarte com um pão, grande como uma massa de sílex e dois outros, Crebillon, conterrâneo de Anselmo e de Ruy Vaz, ruivo, de cavanhaque flamejante, portador de duas garrafas, e o Martins, ex-colega de Anselmo em S. Paulo, de óculos escuros, com uma valise.
Chegando ao patamar atroaram a casa com um hurra! que fez saltar de um canto, espavorido, o gato venerando de Dona Ana, que se pôs a miar arranhando à porta da sala de jantar.
Ruy Vaz, vendo a corte, saiu-lhe ao encontro para pedir compostura, mas ao darem com ele, os noctâmbulos irromperam em saudações frenéticas, mostrando os presentes e não houve meio de convencê-los de que estavam em um quarteirão pacato, em casa de uma família de hábitos patriarcais, às duas horas da manhã. O Neiva berrava como um energúmeno, comandando a expedição, e foram pelo segundo lance da escada com estridor. Ao alto estava o Toledo enrolado no robe de chambre, com uma vela, alumiando. O Neiva bradou:
— Bravos ao Hamlet! E o Lins levantou um viva ao "Farol da civilização!" Logo que chegaram à sala, depondo os embrulhos, enquanto o Duarte, desfazendo um pacote de velas, distribuía uma iluminação profusa, aproveitando igualmente os cotos que haviam trazido resguardados em mangas de papel, o Lins fazia questão do robe de chambre do Toledo e Amélia punha-se à vontade. Ruy Vaz quis conhecer o motivo daquela manifestação noturna e o Neiva, tomando a palavra, explicou, facundo:
(continua...)
POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.