Por Raul Pompéia (1880)
Um minuto depois, era o ferido deitado a um canto da sala principal da habitação pelo paraense, que fechou a porta que dava para fora, e, havendo saciado a sede causada pelo combate terrível em que ele tomara parte, contou a Eustáquio o que se tinha passado.
Estavam os paraenses e Ruperto assustados por causa dos estranhos assobios no momento em que viram se transformar a fisionomia dos novos engajados, que eles reputavam seus verdadeiros companheiros. Antes que pudessem servir-se das suas armas, foram atacados violentamente. Um dos paraenses caiu logo morto pelas mãos dos engajados convertidos em inimigos. Ruperto e os outros paraenses, mais ou menos feridos, foram forçados a recuar do lado dos fundos da habitação, onde principiara a luta, até o lado do Iapurá. A retirada, porém, não foi apressada. Tiveram tempo os que a efetuavam de ver um indivíduo de cor branca e cinco negros transporem as paliçadas e, chegando à porta da cozinha, arremessarem-se a ela manejando fouces. Na frente da casa findou-se o combate, depois de sucessivamente rolarem por terra dous paraenses, Ruperto e dous inimigos, mortos, e outro destes feridos, e quando o último dos malfeitores fugiu, entregando com o campo a vitória ao último dos verdadeiros defensores de Eustáquio.
O padre Jorge chegara-se para o ferido. Abrindo-lhe o peito da camisa, descobriu um golpe profundo que lhe dera a faca do paraense. O desgraçado malfeitor estava perdido. Acreditando que o ferido desejava beber água, o padre Jorge, levantando-lhe com uma das mãos a cabeça, com a outra aproximou-lhe um copo da boca. O bandido moveu convulsamente as pálpebras e lançou ao sacerdote um olhar de rancor.
— Beba! insistiu o padre Jorge. O miserável fechou então os olhos e voltou bruscamente a cara. Quis vomitar alguma blasfêmia... Só pôde expelir uma onda de sangue e soltar um grunhido cavernoso, o seu último suspiro.
O padre Jorge depôs entristecido a cabeça do morto no soalho e dirigiu-se para Eustáquio, que, sem ver o que se passava na sala, estava abraçando comovido seu dedicado defensor. O marido de Branca, ao aproximar-se o padre Jorge, separou-se do paraense e prestou ouvidos a umas marteladas aterradoras que retumbavam pela casa. A porta da cozinha era atacada ainda pelos golpes de fouces dos malfeitores, que chegavam para terminar a obra começada pelos seus companheiros.
— Meus amigos, disse a meia voz Eustáquio, dirigindo-se ao padre Jorge e ao paraense, a nossa situação, não dissimulemos, é quase desesperada. Se algum socorro não nos chegar de S. João do Príncipe antes do arrombamento da porta da cozinha, só nos restará correr para o roseiral, atacar os sete bandidos que querem invadir-me a casa e morrer em suas mãos, deixando Branca, Rosalina e o meu filhinho entregues a Deus.
O marido de Branca parou como que fatigado pelo esforço que fizera para pronunciar aquelas palavras.
Depois prosseguiu, maquinalmente, deixando ver a preocupação do seu espírito:
— Esse socorro não virá sem que se o vá buscar... Eu vou ao povoado. Em breve estarei de volta, trazendo-vos... a salvação.
O padre Jorge e o paraense quiseram dizer alguma cousa.
— Não há nada a observar, meus amigos, ponderou Eustáquio, em tom firme. É talvez perigoso alguém se aventurar lá fora, mas eu espero que serei feliz...
Além do que, quando se trata de salvar a muitos, um pelo menos tem o dever de se arriscar... Eu parto... Até já!
E, antes que os seus amigos tivessem tido a idéia de o deter, Eustáquio encaminhou-se para a porta que dava para o roseiral. Quando suas mãos tocavam a chave da porta, ele ouviu uma voz murmurar-lhe ao ouvido, com a suavidade de um ósculo:
— Adeus!
Voltou-se... Ah! Branca jazia ensangüentada aos seus pés!
Uma detonação forte ressoara.
Enquanto o pobre marido se deixava cair sobre o corpo inanimado da mulher, o padre Jorge e o paraense, meio aturdidos pelo inesperado lance, olhavam com terror por uma janela para o roseiral. Lá fora, empoleirado sobre a cerca, avistava-se um negro. Um bacamarte fumegava-lhe nas mãos. O perverso ria-se do efeito do seu tiro.
Branca vira, da alcova, este miserável apontar uma arma para dentro da casa. Saíra ligeira do aposento e, verificando que Eustáquio era o alvo do bandido, possuída de um heroísmo de que ninguém a julgaria capaz, correra a defender com o seu o corpo do esposo. No momento em que este ouvia o seu doloroso adeus, a carga inteira do bacamarte lhe crivava as costas.
Passada a primeira impressão daquele desgraçado incidente, o padre Jorge e o paraense lembraram-se de fechar, por precaução, todas as janelas que se achavam abertas, deixando o interior da casa em uma meia escuridão, que o crepúsculo vinha aumentar. O infatigável engajado de Eustáquio arrastou um leito para a sala e nele deitou com todo o cuidado a infeliz Branca, que continuava desfalecida.
(continua...)
POMPÉIA, Raul. Uma tragédia no Amazonas. Rio de Janeiro: Typ. Cosmopolita, 1880. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17442 . Acesso em: 6 abr. 2026.