Por Bernardo Guimarães (1869)
— Itajiba, tuas falas são mais doces para a minha alma do que os favos da jataí, ou o suco delicioso do abacaxi. Elas fazem-me palpitar o coração como a flor que estremece ao bafejo perfumado das brisas da manhã. Tu me amas, bem o sei: e o amor que te consagro, também não é para ti nenhum segredo, embora meus lábios não o tenham revelado. A flor mesmo nas trevas se trai pelo seu perfume; a fonte do deserto escondida entre os rochedos se revela por seu murmúrio ao caminhante sequioso. Desde os primeiros momentos tu viste meu coração abrir-se para ti, como a flor do manacá aos primeiros raios do sol. Sinto que não poderei viver mais senão ao teu lado e à tua sombra; se eles quiserem separar-me de ti, ah! morrerei como a flor que da sombra orvalhada do bosque foi transplantada para os areais de fogo. Mas, Itajiba, confiemos na proteção do céu; Tupá é bom e ampara os amores puros. Inimá bem depressa se convencerá de que o não posso amar, procurará esquecer-se de mim, e desistirá de suas pretensões; e meu pai desligado de suas promessas abençoará nosso amor. Amemo-nos, Itajiba, amemo-nos cada vez mais, se é possível, e o céu encarregará de nosso futuro.
E dizendo estas palavras Guaraciaba lançava seus mimosos braços ao colo de Itajiba e o bafejava com seu amor, como a baunilha que enlaça seus tenros vimes ao robusto e altivo tronco do deserto, e lhe distila em torno seu delicioso perfume.
Itajiba, bebendo com avidez as suaves falas de Guaraciaba, foi-se deixando também enlevar pela ingênua e viva confiança que aquela alma inocente depositava na proteção do céu. A tempestade tinha sido tão violenta quanto passageira. O mesmo vento impetuoso que a trouxera a varria rapidamente do firmamento e impelia as nuvens dilaceradas para além das últimas montanhas do levante, como os esquadrões em debandada de um exército derrotado, que foge atropeladamente diante do inimigo vitorioso. O sol já quase tocando ao ocaso, desembaraçado das nuvens que o afrontavam, vibrou subitamente seus raios horizontais por entre os ramos orvalhados da floresta, e um brando clarão róseo insinuando-se pela entrada da caverna iluminou-a de suave crepúsculo e revestiua do aspecto fantástico de uma gruta de fadas.
— Olha, Itajiba, exclama sorrindo a filha de Oriçanga, Tupá mandou-nos a tempestade e encaminhou nossos passos para esta caverna ignorada pelos homens a fim de que as juras de nosso amor fossem proferidas longe de vistas curiosas, e não ecoassem em ouvidos estranhos. Vê como ele agora nos envia um raio de esperança e festeja nossa felicidade!...
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Ermitão de Muquém. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16584 . Acesso em: 25 fev. 2026.