ASSIS, Machado de. Esaú e Jacó. Rio de Janeiro: Garnier, 1904.
Por Machado de Assis (1904)
—Chego sempre a propósito. Já lhe ouvi isso, uma vez, há muitos anos, ou foi a sua irmã... Ora, espere, não me esqueceu o motivo; creio que falavam da cabocla do Castelo. Não se lembra de uma tal ou qual cabocla que morava no Castelo, e adivinhava a sorte da gente? Eu estava aqui de licença, e ouvi dizer cousas do arco- da-velha. Como sempre tive fé em Sibilas, acreditei na cabocla. Que fim levou ela?
Natividade olhou para ele, como receando se teria adivinhado então a consulta que ela fez à cabocla. Pareceu-lhe que não, sorriu e chamou-lhe incrédulo. Aires negou que fosse incrédulo; ao contrário, sendo tolerante, professava virtualmente todas as crenças deste mundo. E concluiu:
—Mas, enfim, por que é que chego a propósito?
Ou o passado, ou a pessoa, com as suas maneiras discretas e espírito repousado, ou tudo isso junto, dava a este homem, relativamente a esta senhora, uma confiança que ela não achava agora em ninguém ou acharia em poucos. Falou- lhe de uma confidência, um papel que não mostraria ao marido.
—Quero um conselho, conselheiro; e demais, para que incomodar a meu marido? Quando muito, contarei o negócio a mana Perpétua. Acho melhor não dizer nada a Agostinho.
Aires concordou que não valia a pena aborrecê-lo, se era caso disso, e esperou. Natividade, sem falar da cabocla, contou primeiro a rivalidade dos filhos, já manifesta em política, e tratando especialmente de Paulo, repetiu-lhe a frase da carta e perguntou o que cumpria fazer mais útil. Aires entendeu que eram ardores da mocidade. Que não teimasse; teimando, ele mudaria de palavras, mas não de sentimentos.
—Então crê que Paulo será sempre isto?
—Sempre, não digo; também não digo o contrário. Baronesa, a senhora exige respostas definitivas, mas diga-me o que é que há definitivo neste mundo, a não ser o voltarete de seu marido? Esse mesmo falha. Há quantos dias não sei o que é uma licença? E verdade que não tenho aparecido. E depois, o prazer da conversação paga bem o das cartas. Aposto que os homens casados que lá vão são de outro parecer?
—Talvez.
—Só os solteirões podem avaliar as idéias das mulheres. Um viúvo sem filhos, como eu, vale por um solteirão; minto, aos sessenta anos, como eu, vale por dous ou três. Quanto ao jovem Paulo. não pense mais no discurso. Também eu discursei em rapaz.
—Já cuidei em casá-los.
—Casar é bom, assentiu Aires.
—Não digo casar já, mas daqui a dous ou três anos. Talvez faça antes uma viagem com eles. Que lhe parece? Vamos lá, não me responda repetindo o que eu digo. Quero o seu pensamento verdadeiro. Acha que uma viagem?...
—Acho que uma viagem...
—Acabe.
—As viagens fazem bem, mormente na idade deles. Formam-se para o ano, não é? Pois então! Antes de começar qualquer carreira. casados ou não, é útil ver outras terras... Mas que necessidade tem a senhora de ir com eles?
—As mães...
—Mas eu também (desculpe interrompê-la) mas eu também sou seu filho. Não acha que o costume, o bom rosto, a graça, a afeição e todas as prendas grisalhas que a adornam compõem uma espécie de maternidade? Eu confesso-lhe que ficaria órfão.
—Pois venha conosco.
—Ah! baronesa, para mim já não há mundo que valha um bilhete de passagem. Vi tudo por várias línguas. Agora o mundo começa aqui no cais da Glória ou na Rua do Ouvidor e acaba no cemitério de S. João Batista. Ouço que há uns mares tenebrosos para os lados da Ponta do Caju, mas eu sou um velho incrédulo, como a senhora dizia há pouco, e não aceito essas notícias sem prova cabal e visual, e para ir averiguá-las, falíam-me pernas.
—Sempre gracioso! Não as vi treparem agora? Sua irmã disse-me outro dia que o senhor anda como aos trinta anos.
—Rita exagera. Mas, voltando à viagem, a senhora ainda não comprou os bilhetes?
—Não.
—Não os encomendou sequer?
—Também não.
—Então, pensemos em outra cousa. Cada dia traz a sua ocupação, quanto mais as semanas e os meses. Pensemos em outra cousa. e deixe lá o Paulo pedir a república.
Natividade achou consigo que ele tinha razão; depois, pensou em outra cousa, e esta foi a idéia do princípio. Não disse logo o que era — preferiu conversar alguns minutos. Não era difícil com este sujeito. Uma das suas qualidades era falar com mulheres, sem descair na banalidade nem subir às nuvens; tinha um modo particular, que não sei se estava na idéia, se no gesto, se na palavra. Não é que falasse mal de ninguém, e aliás seria uma distração. Quero crer que não dissesse mal por indiferença ou cautela; provisoriamente, ponhamos caridade.
—Mas, a senhora ainda me não disse o que queria de mim, além do conselho. Ou não quer mais nada?
—Custa-me pedir-lhe.
—Peça sempre.
(continua...)