Por Eça de Queirós (1940)
Está óptimo. Como parecia aborrecer-se bastante, os sábios, que o vigiam zelosamente, resolveram cercá-lo de alguma sociedade. Vieram dos jardins zoológicos três chimpanzés para lhe fazerem – ia quase a dizer, a partida de whist –, para lhe fazerem companhia ao jantar e falarem das queridas florestas de África. Um dos chimpanzés é engraçado como um clown e estroina como um lorde: desde a sua chegada, a casa do amigo Pongo ressoa de gritos, vacila com os pulos, vibra de toda a ágil, espirituosa, ladina inquietação do faceto chimpanzé. Pongo aprecia esta vivacidade, e tem por ele uma estima reflectida e protectora: faz em geral, aos seus três hóspedes, as honras da casa com benevolência, mas as delicadezas mais especiais são para esse chimpanzé: se lhe dão charutos, oferece-lhe sempre o maior; há dias deram-lhe um chapéu e o excelente Pongo foi logo enterrá-lo na cómica cabeça do seu amigo, recuando um pouco, depois de saborear a pilhéria daquela toilette humana. Quando bebe, passa-lhe logo em seguida o copo, gravemente, com um sorriso. Agora uma coisa extraordinária: Mr. Pongo detesta Darwin!
Darwin é, como sabem (é quase ridículo lembrá-lo), o grande filósofo e naturalista que primeiro estabeleceu a teoria da descendência do homem, e declarou-o nascido directamente do macaco. Parecia natural que Pongo, vendo pela primeira vez o sábio ilustre que lhe deu uma tão alta posição na criação, fazendo-o pai do género humano, lhe daria ao menos um shakehands cordial. Pois não senhor! Detesta-o. Com uma ingratidão africana, apenas o avista, franze a testa, arreganha os dentes, fita-o, volta-lhe as costas. E todavia se há uma bela e doce fisionomia, é a de Darwin com a sua longa barba branca! A amizade de Pongo é pelo ilustre professor Tyndall: quando o vê, atira-se- lhe aos braços e, com uma ideia infame da limpeza do grande sábio, começa a catá-lo com frenesi! E o que Tyndall ri! Comoveu-me, há dias, ver Darwin, e Tyndall, e Fawcett, e outros sábios famosos, honra e esplendor da humanidade, virem fazer a sua visita de amizade a este venerável avô da raça humana! Mas francamente, a atitude do gorilha para com Darwin chocou-me. Estimo-o talvez menos. E a única explicação é esta: Pongo conhece que Darwin o declarou pai do homem: e Pongo, que já tem viajado bastante, que esteve em Berlim, que conhece a população toda de Londres, que tem feito observações prolongadas sobre o homem, está furioso com Darwin e com a sua teoria. «O quê!», pensa ele; «isto, este ser de chapéu alto e luneta no olho, que paga um xelim para me vir ver, é que é o meu descendente? E a isto que Darwin chama um gorilha aperfeiçoado? Mas esse sábio não tem então escrúpulo em lançar uma nódoa infamante na respeitável classe dos gorilhas? Esse sábio é um mau homem!» E volta-lhe as costas. A razão é clara: ele não o considera um observador profundo, acha-o um reles caluniador!
VII
Londres, 1 de Setembro de 1877
Há oito dias que dura a batalha de Chipka. Pela tenacidade heróica, é, creio, o maior duelo militar dos tempos modernos. Chipka é uma das passagens, uma das portas abertas naquela grande parede dos Balcãs, que defende a Turquia turca. Não é propriamente um desfiladeiro, como a Porta de Ferro, ou os outros passes; é um vale formado pela interrupção da cordilheira, de quase cem milhas de largura: não um vale plano, docemente cavado e por toda a parte praticável, mas um vale rugoso com colinas ásperas, precipícios, rochas e, a espaços, espessamente arborizado. Foi por ali que o general Gurko passou, há um mês, triunfantemente, na sua marcha para Constantinopla! Essa aventura, tão interessante pelo romanesco como ridícula pela estratégia, falhou; mas os Russos conservaram-se senhores da passagem, e tinham ali uma guarnição de três mil homens, Foi contra esta fraca força, bem entrincheirada todavia, que Suleiman Paxá arremessou todo o seu exército. Os Russos foram logo poderosamente reforçados, e desde então uma luta colérica, desesperada, heróica, redemoinha por todo o vale, sem que os Russos tenham sido desalojados, sem que os Turcos hajam enfraquecido por um momento a violência do ataque! Batem-se com fuzilaria, com artilharia, a baioneta, desde os primeiros clarões da madrugada; e, como as noites são de luar – o claro luar do Sul da Europa –, o duelo não cessa com a noite. Nos primeiros dois dias, as tropas não dormiram, nem cozinharam. Agora os regimentos revezam-se, e como os dois lados estão constantemente recebendo reforços, o combate sustenta-se numa fúria crescente.
Para quê semelhante luta, pergunta-se com espanto. Compreende-se, até certo ponto, porque os Russos defendem Chipka: conquistaram aquela posição, não se querem deixar expulsar sem resistência, é natural; abandoná-la sem luta a Suleiman Paxá era uma prova de desalento, que faria nas tropas russas, já desanimadas, a impressão repetida de uma nova derrota.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. Crónicas de Londres. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14018 . Acesso em: 29 jun. 2026.