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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

Assim passaram anos. Pouco a pouco, porém, o grupo devoto dispersou-se: a ligação do cônego Dias e da S. Joaneira, muito comentada, afastou os padres do cabido; o novo chantre morrera de apoplexia também - como era de tradição naquela diocese, fatal aos chantres; e já não eram divertidos os quinos das sextas-feiras. Amélia mudara muito; crescera: fizera-se uma bela moça de vinte e dois anos, de olhar aveludado, beiços muito frescos - e achava a sua paixão pelo Agostinho uma "tontice de criança". A sua devoção subsistia, mas alterada: o que amava agora na religião e na igreja era o aparato, a festa - as belas missas cantadas ao órgão, as capas recamadas de ouro, reluzindo entre os tocheiros, o altar-mor na glória das flores cheirosas, o roçar das correntes dos incensadores de prata, os uníssonos que rompem briosamente no coro das aleluias. Tomava a Sé como a sua Ópera: Deus era o seu luxo. Nos domingos de missa gostava de se vestir, de se perfumar com água-de-colônia, de se ir aninhar sobre o tapete do altar-mor, sorrindo ao padre Brito ou ao cônego Saldanha. Mas em certos dias, como dizia a mãe, "murchava"; voltavam então os abatimentos de outrora, que a amarelavam, lhe punham duas rugas velhas ao canto dos lábios: tinha nessas ocasiões horas duma vaga saudade parva e mórbida, em que sò a consolava cantar pela casa o Santíssimo ou as notas lúgubres do toque da Agonia. Com a alegria voltavalhe o rosto do culto alegre - e lamentava então que a Sé fosse uma ampla estrutura de pedra dum estilo frio e jesuítico: quereria uma igreja pequenina, muito dourada, tapetada, forrada de papel, iluminada a gás; e padres bonitos oficiando a um altar ornado como uma étagère.

Fizera vinte e três anos quando conheceu João Eduardo no dia da procissão de Corpus-Christi, em casa do tabelião Nunes Ferral, onde ele era escrevente. Amélia, a mãe, a Sra. D. Josefa Dias tinham ido ver a procissão da bela varanda do tabelião, guarnecida de colchas de damasco amarelo. João Eduardo estava lá, modesto, sério, todo vestido de preto. Havia muito que Amélia o conhecia; mas naquela tarde, reparando na brancura da sua pele e na gravidade com que ajoelhava, pareceu-lhe "muito bom rapaz".

À noite, depois do chá, o gordalhufo Nunes, de colete branco, foi pela sala exclamando, entusiasmado, com a sua voz de grilo: - É tirar pares, é tirar pares! - enquanto a filha mais velha ao piano tocava com brio estridente uma mazurca francesa. João Eduardo aproximou-se de Amélia:

- Ai, eu não danço! - disse ela logo com ar seco.

João Eduardo não dançou também; foi encostar-se a uma ombreira com a mão na abertura do colete, os olhos fitos em Amélia. Ela percebia, desviava o rosto, mas estava contente; e quando João Eduardo, vendo uma cadeira vazia, veio sentar-se ao pé dela, Amélia fez-lhe logo lugar acomodando os folhos de seda, agradada. O escrevente, embaraçado, torcia o bigode com a mão trêmula. Por fim Amélia voltando-se para ele:

- Então o senhor não dança também?

- E a Sra. D. Amélia? disse ele baixo.

Ela inclinou-se para trás, e batendo nas pregas do vestido:

- Ai! eu estou velha para estes divertimentos, sou uma pessoa séria.

- Nunca se ri? perguntou ele, pondo na voz uma intenção fina.

- Às vezes rio quando há de quê, disse ela olhando-o de lado.

- De mim, por exemplo.

- De si!? Ora essa! Está a caçoar comigo? Por que me hei-de eu rir do senhor? Boa!... então o senhor que tem que faça rir? - e agitava o seu leque de seda preta.

Ele calou-se, procurando as idéias, as delicadezas.

- Então sério, sério, não dança?

- Já lhe disse que não. Ai, que é tão perguntador!

- É porque me interesso por si.

- Ora, deixe lá! disse ela fazendo um indolente gesto de negativa.

- Palavra!

Mas a Sra. D. Josefa Dias, que os vigiava, aproximou-se, de testa muito franzida, e João Eduardo levantou-se, intimidado.

À saída, quando Amélia no corredor punha os seus agasalhos, João Eduardo veio dizer-lhe, de chapéu na mão:

- Cubra-se bem, não apanhe frio!

- Então continua a interessar-se por mim? - disse ela apertando em redor do pescoço as pontas da sua manta de lã.

- O mais possível, creia.

Duas semanas depois veio a Leiria uma companhia ambulante de zarzuela . Falava-se muito da contralto, a Gamacho. A Sra. D. Maria da Assunção tinha um camarote, levou a S. Joaneira e Amélia - que duas noites antes estivera costurando, com uma pressa comovida, um vestido de cassa todo florido de laços de seda azul. João Eduardo na platéia - enquanto a Gamacho, empastada de pó-de-arroz sob a sua mantilha valenciana, vibrando com uma graça decrépita o leque de lantejoulas, garganteava malaguenhas agudas - não se fartou de contemplar, de desejar Amélia. À saída veio cumprimentá-la, oferecer-lhe o braço até a Rua da Misericórdia; a S. Joaneira, a Sra. D. Maria da Assunção seguiam atrás com o tabelião Nunes.

- Então gostou da Gamacho, Sr. João Eduardo?

- A falar-lhe a verdade nem sequer reparei nela.

- Então que fez?

- Olhei para si, respondeu ele resolutamente.

Ela parou imediatamente, disse com a voz um pouco alterada:

- Onde vem a mamã?

- Deixe lá a mamã!

E João Eduardo, então, falando-lhe junto do rosto, disse-lhe "a sua grande paixão". Tomou-lhe a mão, repetia todo perturbado:

- Gosto tanto de si! Gosto tanto de si!

Amélia estava nervosa da música, do teatro; a noite quente de Verão, com a sua vasta cintilação de estrelas tomava-a toda lânguida. Abandonou a mão, suspirou baixinho.

- Gosta de mim, não é verdade? perguntou ele.

- Sim, respondeu ela, e apertou os dedos de João Eduardo com paixão.

(continua...)

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