Por Eça de Queirós (1900)
- Pois eu conheço muito, não o Sr. D. Duarte Lourençal, não tenho essa subida honra por ora,mas seu irmão, o Sr. D. Filipe. Cavalheiro estimabilíssimo, como V. Exa. decerto sabe... E depois, que talento... Que talento, no cornetim!
- Ah!
- O quê! V. Exa. não ouviu seu primo, o Sr. D. Filipe Lourençal, tocar cornetim?
E até a bela D. Ana se animou, com um sorriso lânguido dos beiços cheios, mais vermelhos que cerejas maduras sobre o fresco rebrilho dos dentes pequeninos:
- Oh! toca ricamente! O Sanches gosta muito de música; eu também... Mas, como V. Exa.compreende, aqui na aldeia, com a falta de recursos...
Gonçalo, arremessando o fósforo, exclamara logo, num sincero interesse:
- Então, queria que V. Exa. ouvisse um amigo meu, que é verdadeiramente sublime no violão, oVideirinha!...
Sanches Lucena estranhou o nome, a sua vulgaridade. E o Fidalgo, singelamente:
- É um rapaz muito meu amigo, de Vila-Clara... O José Videira, ajudante da Farmácia...
Os óculos de Sanches Lucena cresceram de puro espanto:
- Ajudante da Farmácia e amigo do Sr. Gonçalo Mendes Ramires!
- Sim, desde estudante, dos exames do Liceu. Até o Videirinha passava as férias na Torre, coma mãe, antiga costureira da casa. Tão bom rapaz, tão simples... E na realidade, no violão, um gênio!
- Agora tem ele uma cantiga admirável que chamou o Fado dos Ramires. A música é com efeito um fado de Coimbra, um fado conhecido. Mas os versos são dele, umas quadras engraçadas sobre coisas da minha Casa, lendas, patranhas... Pois ficou sublime! Ainda há dias na Torre, comigo e com o Titó...
E a este nome, familiar e menineiro, Sanches Lucena mostrou outro reparo:
- O Titó?
O Fidalgo ria:
- É uma velha alcunha de amizade que nós damos ao Antônio Vilalobos.
Então Sanches Lucena atirou ambos os braços, como se alguém muito querido aparecesse na estrada:
- O Antônio Vilalobos! Mas esse é um dos nossos fiéis e bons amigos! Cavalheiro estimabilíssimo! Quase todas as semanas nos faz o favor de aparecer pela Feitosa...
E agora era o Fidalgo que pasmava ante essa intimidade a que nunca o Titó aludira, quando no Gago, na Torre, na Assembléia, se berrava, politicando, o nome do Sanches Lucena!
- Ah, V. Exa. conhece...
Mas D. Ana, que se erguera bruscamente do banco, e, debruçada, recolhia a luva e a sombrinha - lembrou ao marido o esfriar lento da tarde, a neblina subindo sempre àquela hora do vale aquecido:
- Sabes que nunca te faz bem... E também não faz bem à parelha, assim parada, há tantotempo.
Imediatamente Sanches Lucena, receoso, puxara da algibeira um espesso lenço de seda branca para abafar o pescoço. E, receoso também pela parelha, logo se arrancou pesadamente do banco de pedra, com um aceno cansado ao trintanário para apanhar o xale, avisar o cocheiro. Mas ainda atravessou, vergado e arrimado à bengala, para o parapeito que resguarda a estrada sobre o despenhado pendor do monte, dominando o vale. E confessava a Gonçalo que aquele era, nos arredores da Feitosa, o seu passeio preferido. Não só pela beleza do sítio, já cantado pelo "nosso mavioso Cunha Torres"; mas porque do terraço da Bica, sem esforço, sentado no banco, avistava numa largueza terras suas:
- Olhe V. Exa.... Para além daquele souto, até a chã e ao cômoro onde está a casota amarela epor trás o pinhal, tudo é meu... O pinhal ainda é meu... Acolá, do renque de álamos para diante, depois do lameiro, é também meu... Ali, do lado da ermida, pertence ao Monte-Agra... Mas, mais para lá, passado o azinhal, pelo monte acima, é tudo meu!
O lívido dedo, o braço escanifrado na manga de casimira preta, cresciam por sobre o vale. Além os pastos... Adiante os centeios... Depois o bravio... - Tudo dele! E, por trás da magra figura alquebrada, de chapéu enterrado na nuca, o abafo de seda subido até às pálidas orelhas quase despegadas, D. Ana, esbelta, clara e sã como um mármore, com um sorriso esquecido nos lábios gulosos, o formoso peito mais cheio, acompanhava a enumeração copiosa, afincava a luneta sobre os pastos, e os pinhais, e os centeios, sentindo já - tudo dela!
- E agora acolá, detrás do olival - concluiu Sanches Lucena com respeito - é sítio seu, Sr.Gonçalo Mendes Ramires...
- Meu?
- De V. Exa., quero dizer, ligado à Casa de V Exa.. Pois não reconhece?... Além, por trás domoinho, passa a estrada de Santa Maria de Craquede. São os túmulos dos seus antepassados... Passeio que eu também às vezes faço, e com gosto. Ainda há um mês visitamos detidamente as ruínas. E acredite que fiquei impressionado! Aquele bocado de claustro tão antigo, os grandes esquifes de pedra, a espada chumbada à abóbada por cima do túmulo do meio... É de comover! E achei muito bonito, muito filial, da parte de V. Exa., o ter sempre aquela lâmpada de bronze acesa de noite e de dia...
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.