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#Romances#Literatura Portuguesa

Coração, Cabeça e Estômago

Por Camilo Castelo Branco (1862)

Há-de muita gente pensar que Silvestre da Silva, nesta parte de suas memórias, anda apegado às muletas literárias dos modernos regeneradores das mulheres degeneradas. Arguição injusta! A Margarida Gauthier é muito mais nova que a Marcolina; e reparem, além disso, que o processo da reabilitação. Eu estou em acreditar que Marcolina, longe de exibir a fibra pura do seu coração, pedindo que lhe aceitem a virgindade moral que ela se refugiou das paixões infames e infrenes, há-de esconder os bons sentimentos com pejo de os denunciar, e fará que as fivelas da mordaça lhe apertem atrozmente os lábios, quando a palavra “amor” lhe rebentar da abundância do coração. A meu ver, Marcolina está dando lições de moralidade, quando muita gente cuida que ela está pedindo lágrimas e perdão dos agravos que fez à moral pública. Veremos.

Como quer que seja, aqui não há damas de camélias, nem Armandos. Silvestre não quer que o romanceiem nem dramatizem. Conta as coisas em escrito como mas disse a mim conversando, e eu agora as dou em estampa ao universo quais as achei nos seus manuscritos. Da moral do conto, o universo que decida, e os localistas.

VIII

Marcolina fingiu que comia e que se alegrava. Quis ter graça para responder à provocação das minhas facécias: mas era senhoril de mais nos chistes, que saíam obrigados pelo desejo de fazer-me boa companhia. Tomou algumas chávenas de café e não provou nenhuma bebida espirituosa. À quarta ou quinta chávena, teve um acesso violento de tosse, que terminou com um golfo de sangue. Saiu do quebranto em que ficara com as faces emaciadas e lívidas. Pediu-me perdão do dissabor da sua doença e prontificou-se, se eu queria, a ir contarme o restante da sua vida, à sombra das árvores. Desisti da minha curiosidade, dispensando-a de falar naquele dia em coisas que a fizessem chorar e me comovessem a mim. Não quis. Aceitou-me o braço e saímos. À sombra da primeira árvore, distante dos grupos que a viram passar e nos olhavam com um sorriso de escárnio ou de piedade da minha libertinagem, sentou-se Marcolina, e recomeçou com as últimas palavras que dissera antes de jantar:

- Felizes os que choram... E a única felicidade que eu posso dar-lhe. - E prosseguiu, depois de recordar o facto em que ficara suspensa a história:

Augusto, apesar das minhas instâncias, pouco sinceras, falou-me do seu amor incessantemente; com tanto respeito, porém, o fazia, quer eu estivesse sozinha, quer com as minhas irmãs, que me cativou a gratidão. Mal sabe o mundo quanto a mulher indigna de respeito sabe ser agradecida a quem teve com ela a comiseração do recato nas palavras e nos gestos!... A infeliz passa da estranheza à alegria de se ver ainda tratada com delicadeza, quando a consciência, o seu verdugo, lhe está dizendo que não merece inspirar sentimento algum, que não seja aviltante ou desonesto. Foi assim que me prendeu Augusto, sem me despertar o amor doutro tempo. Sentia que o não amava e mentia-lhe, querendo retribuir a sua generosidade cavalheirosa. O desapego de meu coração era incompreensível. Na minha vida só se tinham dado os infortúnios que lhe contei. Não gastara a sensibilidade; amara-o apenas a ele; e, sem ter sido enganada pela sedução dalgum homem, sinceramente lhe digo que me inclinava a odiá-los todos. Creio que me levaram a isto as desgraças de minha irmã falecida. Cuidei que todos os sentimentos de dignidade lhos tinham matado os homens, reduzindo-a à hediondez de corpo e alma em que a vi.

As conversações de augusto tendiam todas ao casamento. Contrariei-as com simulada repugnância; mas em minha alma antevia a felicidade de ter um marido, que nunca me havia de pedir contas do meu passado. Além disso, meditando nos costumes de Augusto, no seu viver, na sua aplicação aos estudos, e no plano que tinha de se retirar para uma província logo que estivesse formado, achava-o mais perfeito do que eu podia merecê-lo: parecia-me que qualquer menina sem mancha na sua reputação e com um bom dote se devia dar por bemaventurada com tal marido.

Casei.

Acredite que eu não tive um mês de contentamento. Sou obrigada a crer que há em mim desgraça contagiosa. Augusto transfigurou-se, se não era hipócrita; ou o demónio do meu destino lhe entrou no espírito para me atormentar sem tréguas, nem fim. Eu não posso demorar-me a contar-lhe pelo miúdo o desconcerto em que vivemos. Augusto era libertino, dissipador, jogador, e até embriagado o vi muitas vezes. Como se explica esta mudança, a não ser pela precisão de mudar-se tão espantosamente um homem que devia ser o meu flagelo?! Mas Porquê? Em que era eu criminosa para tal castigo? Que mal fizera eu a Deus ou à sociedade? Não fui causa a que o barão deixasse a mulher, porque já a tinha abandonado quando me levou para si. Fui boa com a minha mãe e com minhas irmãs. Lembra-me agora se o meu crime era possuir alguns contos de réis das jóias que me tinham sido dadas, e que eu escondi aos direitos da herdeira. Mas a minha desonra e repulsão dentre as pessoas virtuosas não valia alguma coisa?

(continua...)

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