Por Camilo Castelo Branco (1864)
O velho acenou-me, a ocultas da filha. Segui-o; saímos, e caminhámos a pé na direcção das rumas de Citânia. A meio caminho estava uma casa alagada, com uns lanços de muro ainda em pé. O velho avizinhou-se das rumas, estendeu o braço como indicador apontado e disse: "Aqueles pardieiros pertenceram a teu tio-avô Cristóvão de Teive.
Naquele tempo, os homens de vida infamada, quando os últimos Invernos lhes geavam na cabeça e os sinos, dobrando a finados, lhes atraiam os olhos para a sepultura, o remorso penetrava-os até ao âmago, e estorcia-os nas roscas das suas mil víboras, até que Deus se amerceava deles e os tomava para o seu tribunal. Teu tio-avô foi um mau desgraçado. O amor de uma mulher da corte entrou-lhe no coração e apodreceu-lho à força de lhe derramar o sangue com as torturas da perfídia. O moço empestado veio para a província e cevou o seu ódio em quantas vitimas pôde surpreender adormecidas no regaço do seu anjo de inocência. Aos quarenta anos, pesou sobre ele a maldição de Deus. Desde a raiz dos cabelos até à raiz das unhas chagou-se-lhe o corpo de lepra. De repente, em redor dele, fez-se uma solidão horrenda. Desampararam-no todos. Nem os enjeitadinhos, indigitados como filhos dele, ousavam chegar-lhe um púcaro de água.
Cristóvão de Teive tinha esta casa, aqui afastada de vizinhos, construída não sei para que fim há três séculos. Aqui se encerrou e viveu quinze anos aquele vivo amortalhado nas úlceras da sua pele. A sua companhia era a ama, que o amamentara, e que Deus, em recompensa, preservou da terribilíssima enfermidade. Morreu desamparado, legando esta casa à mulher que lhe cerrara as pálpebras. A enfermeira foi após ele, devolvendo a casa aos herdeiros de seu amo. Cinquenta anos depois, quando eu vim aqui, encontrei estes pardieiros. Dos nossos parentes ninguém pôs pé adentro das soleiras, que ali estão, onde existiram as portas...
"Deteve-se meu tio breves instantes e concluiu: "Afonso, o divino Mestre doutrinava com parábolas: o homem destes calamitosos tempos moraliza com exemplos. Teu tio-avô começou como tu: vê tu, meu sobrinho, se vingas um correr de vida melhor que o dele. Se uma mulher te cancerou o peito, esconde-te, depura-te, faz-te bom, e depois volve ao mundo a procurar a felicidade do coração. Enquanto esse dia de regeneração não chegar, foge das mulheres puras. Eu tenho uma filha única, um tesouro que Deus me confiou. Minha filha chora por ti. Afonso, se as lágrimas dela te não resgatam das presas de uma mulher perdida, foge, e foge hoje mesmo. Agora, silêncio, Afonso..."
"Na madrugada do dia seguinte, saí das Taipas e fui para Ruivães. Dias depois, desisti do plano de me formar, e fui para o Porto. Saía um vapor para Liverpul:
embarquei, e estive na Inglaterra; passei a França; e de França fui residir na Suíça uns seis meses. O arrependimento de deixar minha mãe e a minha terra seguiu-me sempre.
Resolvi regressar por muitas vezes; mas, fatalmente, a primeira imagem que eu via, voltando em espirito à Pátria, não era a de minha mãe! Ela sempre, Teodora sempre!
"Ao cabo de um ano de expatriação, voltei para o Porto. Dava-me então como curado. A memória dela era já fria: o pulso não se acelerava, nem do coração me subia à cabeça um golfo ardente de sangue. Fui alegrar minha mãe, ao lado da qual encontrei Mafalda, que lhe assistia à convalescença de uma perigosa enfermidade. Notei sensível mudança no rosto de minha prima. Os risos do anjo tinham ascendido ao Céu no perfume de suas orações. A coruscante luz daqueles olhos tinham-na apagado os prantos. As madeixas caíam-lhe soltas sem flores, sem ornatos, como dons de quem os esquece, ou não sabe de que eles valham às venturas da existência. Porém, formosa da auréola santa da dor sem culpa. Que paixão me avassalou naqueles primeiros dias! Com que religiosidade eu beijava a mão de minha mãe aquecida pelos lábios dela! Recordome de a encontrar sozinha no pomar. Sentei-me ao lado da mulher puríssima. Tomei-lhe. com súbita sofreguidão os dedos que me ofereciam um pomo. Não ousei beijar-lhos... apenas balbuciei: "Minha querida irmã..." Mafalda respondeu-me:
"Deves assim chamar-me, porque eu já me afiz a chamar minha mãe à tua, meu primo". "A paz dos primeiros dias, aquele suave repousar do espírito, entre as duas caridosas almas, que mo distraiam com as indizíveis doçuras da domesticidade, durou menos de três semanas. Ao sentir-me fatigado da igualdade de todas as horas, angustieime, e cobrei horror do meu futuro. "Que abominável homem sou!", dizia eu no meu intimo senso, repelindo-me a mim próprio com uma restante força de virtude. "Se me repugna o crime, por que a não esqueço? Se a não posso esquecer, para que me devoro nestas cobardes tentativas de lhe fugir? Odeio-a, e em minha alma lhe exoro perdão deste ódio. Se me dói o coração saudoso dela, abomino-me, e recurvo sobre mim próprio as unhas desta feroz paixão."
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Salvação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=88534 . Acesso em: 28 jun. 2026.