Por Machado de Assis (1872)
— A segunda razão, respondeu Moreirinha com hesitação, é que... não posso. Félix desceu os olhos no vestuário do rapaz, e viu nele o comentário das palavras que acabava de ouvir. Elegância ainda havia, mas já pobre e rafada; os botins tinham sinais de longo serviço; o paletó aliás bem lançado, era de fazenda visivelmente inferior. Trazia luvas cor havana, mas ao olhar curioso de Félix não escapou a circunstância de que as pontas dos dedos já estavam assinaladas por uma leve pasta de cor preta, vestígio de aturado uso.
Não era preciso grande perspicácia para compreender que aquilo tudo era obra de Cecília. Nem ficaria longe da verossimilhança quem afiançasse que Moreirinha estava eternamente condenado ao capricho daquela mulher. Não tinha decerto o rapaz com que lhe satisfazer todas as vaidades e necessidades; ela incumbia-se de abrir outras verbas no orçamento da receita, mediante um bem combinado sistema de impostos.
Félix compreendeu tudo isso de relance, e procurou trazer o espírito de Moreirinha a idéias mais alegres, menos ainda por ele que por si.
Não foi cousa difícil. Ao espírito de Moreirinha repugnavam as preocupações graves. Aproveitou o ensejo que o médico lhe ofereceu e entrou a falar das cousas correntes do dia. Dos mil episódios da vida de certa classe, não havia gazeta melhor informada que o amante de Cecília. Os novos amores de uma, os arrufos de outra, o dito chistoso desta, a aventura daquela, tudo ele sabia em primeira mão. Não lhe perguntassem por estréias literárias nem crises políticas; mas a mobília com que Fulano presenteara a certa dama, a cela equívoca em que Sicrano chegara a beber champagne por uma botina, esse era domínio seu, desde que os amores de Cecília de todo o separaram da sociedade.
Isto não recreava nem interessava, mas enchia o tempo, e desde que estava obrigado a sofrer o hóspede, era melhor sofrê-lo assim.
Era impossível, entretanto, não volver o espírito à sua própria situação. De quando em quando o médico esquecia o narrador, e o seu pensamento ia esvoaçar em derredor da viúva. Foi numa dessas ocasiões que lhe chegou uma carta dela. Félix abriu-a sofregamente e leu-a duas vezes. Era longa; recapitulava a história daqueles últimos meses, e concluía fazendo um apelo à razão do médico. Adivinhava-se que a moça escrevera com lágrimas, mas já não havia o tom súplice com que em análogas ocasiões lhe pedia a reconciliação.
O tempo alguma obra havia já feito no espírito de Félix; a carta veio consumá-la. Félix não estava ainda certo da inocência da viúva, mas já estava certíssimo da brutalidade da sua explosão, e este reconhecimento era uma dor nova, quase tão profunda como a outra. Seu primeiro impulso foi ir ter com Lívia; desistiu dele e preferiu escrever-lhe uma carta. Três vezes a começou sem lograr chegar ao fim. Vacilava entre ser afetuoso ou severo; num caso lembrava-lhe a perfídia possível, noutro, a provável inocência; temia ser injusto ou ridículo. Como todos os caracteres indecisos, não achou mais recurso que uma inútil desesperação.
Anoitecera; Moreirinha estava mais alegre que nunca, e pagava a hospitalidade do médico com as suas galhofas costumadas. Não contava com Cecília, mas adivinhou que era ela quando ouviu parar um carro à porta.
— Estou perdido! disse ele desatando um longo suspiro.
Era ela.
Cansada de esperar que lhe levassem resposta do recado que dera, Cecília desceu do carro e entrou em casa. Ao chegar à porta relanceou os olhos pela sala, onde não viu desde logo o amante; Moreirinha metera-se no vão de uma janela. Félix olhou severamente para Cecília, como quem lhe estranhava a liberdade que tomara. Mas onde iam já as flores de antanho? A dócil rapariga de outro tempo tornara-se mulher desgarrada e solta. Caminhou afoutamente para o médico e estendendo-lhe a mão:
— Como estás, mon vieux? disse com um risinho de mofa.
Nessa ocasião descobriu o amante, que parecia entretido em contar as estrelas. Foi a ele, e soltava já as primeiras palavras de uma veemente apóstrofe, quando Félix julgou prudente intervir a tempo de evitar um escândalo; reconciliou-os como pôde, e secamente os despediu.
Lívia estava à janela desconsolada e triste, enquanto Raquel, não menos triste que ela, executava no piano uma melodia adequada à situação de ambas. Não viera resposta do médico, a viúva sentia desvanecer-se-lhe a esperança de tantos meses, e com ela o futuro que tão perto se lhe afigurava. Estas eram as suas melancólicas reflexões, quando viu parar à porta de Félix um carro, descer uma mulher, entrar, sair depois com um homem e partirem ambos.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Ressurreição. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1872.