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#Contos#Literatura Brasileira

Uma Tragédia no Amazonas

Por Raul Pompéia (1880)

Depois das últimas palavras do padre Jorge ninguém mais falara. Ninguém se lembrava de que eram horas de jantar. Todos esperavam pelo ataque dos bandidos. Branca com algum medo, Rosalina com impaciência, porque queria ver logo seca a fonte das inquietações dos seus benfeitores. Eustáquio e o seu amigo, confiados nos defensores da casa, só contavam com a sua vitória e o extermínio dos malfeitores. Apesar disso, vagos receios vinham turvar-lhes a tranqüilidade.

Assim estavam quando da orla da mata virgem partiu um assovio estridente.

Eustáquio e o padre Jorge se olharam. Ambos tinham empalidecido. Quase tiveram medo.

Branca e a sua amiguinha os fitavam, esperando que eles exprimissem um juízo acerca do silvo.

— Um sinal! balbuciou o padre Jorge.

Ao pronunciar a última sílaba de "sinal", um outro assobio confundiu-se com a sua voz. A este silvo seguiu-se uma vozeria estrondosa. A algazarra era nos fundos da casa. Eustáquio tomou uma pistola e, passando pelo corredor central, chegou à cozinha. Nesse momento fortes pancadas fizeram tremer uma porta da cozinha que dava para o roseiral e que estava fechada, enquanto vários tiros estalavam da parte de fora.

Eustáquio ouviu também o ruído de estilhaços de vidro que caíram no chão da sala, donde acabava de sair.

— Oh! atacado por dous lados exclamou ele, engatilhando a pistola que empunhara.

A cousa vai mais rápida do que eu esperava, disse o padre Jorge, apresentando-se na cozinha.

— Vai! vai! repetiu Eustáquio em tom gutural. E depois, olhando espantado para o amigo, gritou:

— Estais ferido!

Pelo rosto do padre descia um fio vermelho.

— Isto não é nada!... Um fragmento de vidro tocou-me a testa.

— Que vidro, padre Jorge?...

— Uma das vidraças da sala foi despedaçada por algumas balas. Vem ver!

Eustáquio lançou um olhar à porta da cozinha e, vendo-a solidamente trancada, voltou com o amigo para a sala principal.

Branca, tendo ouvido chorar o seu filhinho, que os tiros tinham acordado, recolhera-se à alcova juntamente com Rosalina e fora acalentar a criança.

No roseiral repetiam-se detonações e gritos.

Uma luta terrível parecia ter lugar aí. Como dissera o padre Jorge, uma das vidraças da sala fora quebrada por alguns projéteis perdidos. Os dous amigos precipitaram-se para ela, que estava menos longe deles, e, sem receio de se cortarem, enfiaram a cabeça pelos caixilhos, que sustentavam ainda agudas pontas de vidro.

A vista do roseiral era de aterrar. Uma fumaça escura se enovelava pelas roseiras, espalhando forte cheiro de pólvora. No chão estavam estendidos três mortos. Dois paraenses e Ruperto haviam já sucumbido. Um dos indivíduos ultimamente engajados jazia ferido junto de uma estaca. Dos outros defensores de Eustáquio um, paraense, desaparecera e os restantes combatiam.

Eustáquio e o padre Jorge, petrificados de espanto, viram sem compreender o verdadeiro* dos paraenses cercado por três homens, de catadura inflamada pela raiva brandindo fouces e punhais sobre ele, e nesses três homens reconheceram os novos engajados!

O paraense defendia-se valentemente a coronhadas, e os seus adversários recuavam para longe, a cada volta que ele descrevia com a sua espingarda segura pelo cano.

Uma palavra repetia ele com indignação:

— Traidores! Traidores!

— Padre Jorge, badrou Eustáquio, que tivera de súbito um pensamento, eles não são traidores!... Ainda há pouco ouvimos um sinal... Era para eles, que, apenas o ouviram, romperam a luta. Não são traidores! Fazem parte da quadrilha que me persegue! Conseguiram introduzir-se em minha casa e estão desempenhando um papel de que foram encarregados!

— Sim, meu amigo, sim! E sou eu quem tem a culpa desta desgraça... Perdoa-me! Um excesso de prudência me fez imprudente... Fui muito precipitado aconselhando-te engajamento de indivíduos que eu não conhecia... mas fui levado por um grande receio de que não fosse suficiente o pessoal que tinhas para tua defesa. Demais, as aparências dos malvados me iludiram!

— Oh! vão matar o paraense! exclamou Eustáquio, que, sem dar atenção ao padre Jorge, acompanhava os rápidos momentos do combate do roseiral.

O intrépido caboclo, que a princípio resistira com vantagem, começava a fraquear.

O marido de Branca levantou a pistola que tinha na mão e, através dos caixilhos, desfechou um tiro... Uma bala foi tocar o peito de um bandido, cuja mão chegara a garganta do paraense. O miserável sentiu afrouxarem-se-lhe os músculos. Ajoelhou-se e caiu de frente sobre o ferido que estava por terra.

Na mesma ocasião uma pancada formidável descarregada pelo caboclo esmagou o crânio de outro inimigo, cujo companheiro restante fugiu para o lado dos fundos da habitação.

Senhor do campo, o paraense arrancou tranqüilamente um pedaço da camisa, rasgada na luta, e com ele limpou o sangue de alguns ferimentos leves que recebera.

Em seguida aproximou-se da janela ocupada por Eustáquio e o seu amigo e pediu-lhes água:

— Entre para beber, disse-lhe Eustáquio.

— E traga aquele desgraçado, acrescentou o sacerdote, indicando o malfeitor ferido, que gemia esforçando-se por livrar-se do cadáver que caíra sobre ele.

(continua...)

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