Por Domingos Olímpio (1903)
— Você não sabe de quanto o bicho mulher é capaz, quando vira a cabeça.
— Anda; conta o resto.
— Eu fazia idéia da fúria, da danação dele, quando deu por falta de mim, da cunhãzinha russa. Imaginei os berros, os despropósitos, as pragas, que me irrogou, as ameaças de desforra, pois sabia que não era homem para se conformar com o roubo da mulher. Meu dito, meu feito. Um dia chegou Bentinho muito assustado, recomendando que me escondesse, porque lhe haviam inculcado gente do Berto nos arredores da povoação. Fiquei mais morta do que viva. Não me podia levar para a fazenda, porque a família, que tudo ignorava, não consentiria nisso. A velha que quase não dava fé de mim e vivia muito ocupada na criação, entrou a tomar precauções para ninguém suspeitar a minha estada em sua casa. Um dia, era dia de, feira, e eu tinha um desejo doido de ver a reunião de gente de uma redondeza de vinte léguas, vendendo legumes, farinha, rapadura e outras produções da lavoura; mas a megera não consentiu que eu botasse o nariz de fora. Ali por volta de meio-dia, ouvimos tiros de bacamarte e uma algazarra dos demônios, um bate-boca desadorado. Pouco depois soubemos que houvera um pega entre cangaceiros, desconhecidos no lugar, e a gente do Bentinho, e que já havia morrido um homem... Que seria?... Fiquei numa aflição, tremendo de susto, mas experimentava uma secreta satisfação que fosse por minha causa a briga e o sangue derramado.
— Que horror!...
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O touro negro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7415 . Acesso em: 25 mar. 2026.