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Memórias da Rua do Ouvidor

Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)

Em 1791 a amorosa irmã do Coronel Francisco de Paula recebeu, em carta vinda de Lisboa, a comunicação confidencialíssima da Carta Régia de 15 de outubro de 1790, comutadora da pena de morte; mas carta régia que ficaria guardada em absoluto segredo, até que a alçada lavrasse no Rio de Janeiro a sentença de morte dos réus.

A excelente irmã radiou jubilosa; mas o júbilo nunca é perfeito no coração humano.

Francisco de Paula, em seu cárcere subterrâneo da ilha das Cobras, vivia atormentado pelas sinistras apreensões da forca.

A forca era o pesadelo horrível que o ansiava no sono de suas noites lúgubres.

Mas o segredo da Carta Régia era condição que, desrespeitada, podia anular a graça a tanto custo obtida.

A piedosa irmã não teve força bastante de ânimo para guardar a notícia confidencialíssima com tão apurado zelo que resistisse ao empenho ardente de consolar o Coronel Francisco de Paula, varrendo-lhe do espírito as horríveis idéias apreensivas, não da morte, mas da ignominia da forca.

Como, porém, transmitir ao irmão aquele segredo melindroso, e cuja quebra e arriscada propalação seriam crime, e crime fatal?...

A mulher, que tem às vezes artes do diabo, também às vezes admira por travessuras e inspirações de anjo.

O Coronel Francisco de Paula Freire de Andrade estava preso e incomunicável em um dos cárceres subterrâneos da ilha das Cobras, assim como os outros réus da conspiração mineira; mas cada qual deles em prisão separada e sem comunicação com os outros. Sabiam todos eles que mais ou menos vizinhos se achavam; mas só algum mais alto gemido por ventura alguma vez chegava ao ouvido da irmã-vítima em masmorra mais próxima. Estavam juntos, e mais do que nunca separados.

A exceção dos agentes da justiça e dos carcereiros muito observados, só penetrava até cada um dos inconfidentes um padre incumbido de exortá-los religiosamente e de ouvi-los em confissão.

Mas o governo do vice-rei tinha errado na escolha do padre, porque o padre escolhido era bom e piedoso.

Ou por feliz acaso ou por amoroso artifício, a irmã do Coronel Francisco de Paula tomara esse mesmo padre por seu confessor e diretor de consciência, e aos poucos o foi comovendo tanto com as suas lágrimas pela desgraça do irmão, que acabou tendo nele inocente e apiedado intermediário, que lhe trazia notícias do estado de saúde e das esperanças e temores do ânimo do triste encarcerado.

A proteção do padre limitava-se exclusivamente a essas pobres consolações: além delas nunca uma carta, nem informações sobre a devassa, nem sobre o cárcere, onde Freire de Andrade estava preso.

O padre zelava à risca o segredo imposto relativamente aos infelizes inconfidentes guardados nas prisões subterrâneas da ilha das Cobras.

A irmã do Coronel Francisco de Paula, que recebera de Lisboa um pequeno caixote de lindas maçãs, escolheu dentre elas uma, e com finíssimo canivete, e com a mais apurada delicadeza abriu no fundo da parte mais côncava da fruta sutil entalha, sacando pequenino batoque piramidal; pela abertura feita assim escavou um pouco a fruta, e nesse vão escondeu uma tirazinha de papel, na qual escrevera: "Com certeza comutação da pena de morte na última hora", e com a mesma delicadeza e finura adaptou o batoquezinho perfeitamente seguro e de modo a iludir o homem mais ladino.

Sem dúvida aquela doce e extremosa irmã talhou dez ou vinte maçãs antes de chegar à última, em que se aplaudiu da perfeição da sua obra.

No outro dia a comovida e comovente senhora pediu chorando ao padre seu confessor o caridoso e inocentíssimo favor de levar uma maçã, que lhe apresentou, a seu infeliz irmão.

O padre, coitado, chorou também, recebendo a maçã, e no mesmo dia entregou-a ao Coronel Francisco de Paula a quem fora consolar e exortar no sombrio cárcere.

- Obrigado mil vezes, meu padre!... disse-lhe o preso beijando-lhe as mãos; obrigado!... rogo-lheque agradeça por mim à minha triste e amada irmã.., e que lhe deite a sua bênção... ah! meu padre!... abençoe minha irmã... abençoe-a!...

Mas quase logo acrescentou:

- Ah!... outros a quem arrastei para a desgraça merecem mais do que eu consolações e doceslembranças de amizade. Meu padre! complete a sua obra de comiseração e de piedade católica; leve e dê esta maçã ao meu infortunado amigo e companheiro de adversidade, o Sr. Vigário Toledo.

O pedido do Coronel Francisco de Paula foi satisfeito, e horas depois o Vigário Padre Toledo, que recebera e guardara a maçã, ao parti-la, achou dentro da fruta a preciosa tirazinha de papel anunciadora de muito consolador mal menor.

A maçã não produziu os efeitos com que calculara a senhora sagaz.

O Padre Toledo incomunicável, como os outros inconfidentes presos, não pôde transmitir nem a Freire de Andrade, nem a algum dos outros réus e amigos a notícia que por acaso lhe chegara.

(continua...)

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