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#Crônicas#Literatura Portuguesa

Crónicas de Londres

Por Eça de Queirós (1940)

Enquanto ao polícia ordinário, o policeman, que vigia a rua, pode dizer-se que em Inglaterra, pouco a pouco, um sistema errado tem-nos tornado inúteis para tudo que não seja policiar o movimento das ruas, dar indicações a quem não conhece a cidade e acompanhar os bêbados mais sonolentos. Não se lhes peça mais nada. Isto provém de que ultimamente todos os comissários e chefes de policia são antigos oficiais do exército; e o seu primeiro cuidado é, por consequência, com o hábito do regimento, dar à força policial. à sua disposição, um aspecto militar» Escolhem os homens não pela sua aptidão, mas pela sua estatura. Contanto que sejam enormes, barbados, de movimentos secos, direitos como um poste e agranadeirados, não se lhes reclama mais nada» Fardam-nos, ensinam-lhes a marchar com tesura e entregamlhes a protecção da cidade. Isto explica porque se vê a cada esquina de Londres um policeman colossal, hercúleo, imóvel, rolando em roda olhares severos, e na esquina oposta, risonho, um pickpocket – é que se procurou um tambor-mor e não um hábil.

Os comissários têm orgulho nestas colecções de corpanzis, fazem manobras a desfilar a dois de fundo, e no entanto o cidadão é roubado e assassinado com um doce sossego de facínora. É que estes gigantes são ordinariamente estúpidos, como todos os gigantes. Naquela imensa massa de músculos e osso, há lá no alto, num canto, um bocadinho de miolos, bastante para que ele saiba distinguir o nome das ruas. De resto, força de braço, sério! Se se trata de levantas um bêbado, bem! Agarram nele, como numa pele, metem-no debaixo do braço e vão a marche-marche; mas se se trata de descobrir um crime, boas noites! O gigante, a quem se pede um esforço do intelecto, arregala os olhos e baba-se!

O herdeiro presuntivo do herdeiro presuntivo, isto é, o filho mais velho do príncipe de Gales, está perigosamente doente há semanas, com uma febre tifóide. Recentemente uma recaída tem-no colocado em perigo. O que me espanta é a indiferença gelada que o público inglês, sempre tão sôfrego de fazer espalhafato com o seu amor à dinastia, tem mostrado por esta infeliz criança. Nem uma linha oratória nos jornais, nem uma expressão dedicada de simpatia, nada! Apenas, nas notícias da corte, as quatro palavras secas que o declaram mal. Não me espanta menos ler logo, mais abaixo, nessas notícias, as caçadas, os jantares, as corridas de que o príncipe de Gales é o centro glorioso: enfim, a realeza tem certas escravidões de etiqueta, que não deixa tempo aos deveres da paternidade, ou às inquietações do sentimento. Mas porque é que, na ocasião em que o príncipe está pior, a princesa de Gales, sua mãe, uma senhora de tão altas virtudes, um carácter tão nobre, tão dedicado, vai para o Teatro do Criterion ouvir as pilhérias de uma farsa picante – os Dominós Cor-de-Rosa. Decerto não é por sua vontade; a princesa de Gales tem as qualidades antigas da mãe de família romana: o seu desejo seria criar seus filhos e fiar o linho. Mas porque vai então ao Criterion? Ingleses, a quem tenho feito esta pergunta, encolhem misteriosamente os ombros e murmuram: «A etiqueta!»

Nenhuma novidade literária, a não ser o livro de Gallenga, o correspondente do Times em Constantinopla, sobre alguns dos episódios mais característicos da questão do Oriente. Este livro, que é a reprodução da sua correspondência, tem um lado curioso: mostra o poder, em Inglaterra, de um correspondente de jornal. Gallenga convenceu-se em Constantinopla que o embaixador inglês, Sir G. Elliot, não representava com vanta-gem os interesses britânicos na Turquia. Apenas formou esta ideia, dirigiu-se à embaixada e intimou o embaixador para mudar rapidamente uma política que ele, correspondente do Times, julgava nociva.

O embaixador não o mandou expulsar pelo mordomo, porque isso seria insultar o Times, o que equivale a ofender a City, o que significa injuriar a Inglaterra, mas contentou-se em resmungar monossílabos com os olhos fitos obstinadamente no fogão, que, sendo Verão, estava apagado. Gallenga, como ele diz, escandalizou-se com aquela falta de atenção às suas observações e com aquele costume ridículo de olhar para um fogão apagado. Deixou a embaixada, veio para o seu hotel e começou aquela série de correspondências, que revolveram profundamente a opinião e obrigaram o Governo a demitir o embaixador! Gallenga, agora, no seu livro, conta esta curiosa campanha, todo enlevado num doce júbilo!

Feliz Gallenga!

Outro dia entrei por acaso no primeiro tribunal de Londres onde o lord chief justice, o primeiro magistrado da Inglaterra, estava resumindo um caso de tentativa de assassinato. O réu, um homem grosso, de barba amarelada, foi condenado a trabalhos públicos por toda a vida; depois de ler a sentença, o lord chief justice parou um momento, fitou o réu e, com aquele largo e pomposo gesto que todo Londres conhece, exclamou:

– Aí está! Vivereis em servidão penal! Não tivestes a inteligência de prever as consequências que vos traria a vossa conduta, e é deplorável que não tivésseis a coragem de deixar este mundo antes do que incorrer nesta pena infamante!

Se isto não é descompor um réu por ele se não ter suicidado, então não sei o que é. Fiquei atónito. Meditem bem nisto: censurar o réu, asperamente, por ele não ter tomado arsénico, ou se não ter enforcado com a gravata! Não, realmente é das coisas mais singulares de que podem rezar os anais da magistratura europeia!

Notícias do amigo Pongo.

(continua...)

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