Por Eça de Queirós (1925)
—É uma occupação p'ra ti — dizia Ricardina. — Tens ao menos para o teu fumo e para as tuas extravagancias — ajuntou Sabina. — Que nós, mesada, não te podemos dar. E quando se te acabar o luto, nem tens para mandar fazer um casaco . . . E são sete mil e quinhentos
Não podia recusar-se a trabalhar : balbuciou lugubre,mente que sim ».
Mas a desconsolação que lhe murchara a face magra foi tão visivel que commoveu a tia Sabina :
—É para o teu bem — murmurou. — Que se fossemos ricas , . . Mas emfim se te custa muito . . .
— Que ha-de custar Que ha-de custar ? —— exclamou Ricardina — Ahi vem a mana com as suas cousas ! Olhe o desproposito. Se a deixassem regular-se pela sua cabeça, não iam n'esta casa senão desgraças. Veja onde a levou a sua cabeça . . . Veja o desgosto que soffreu ! Vai muito bem, é uma fortuna para elle.
— Sim, tia Ricardina, obrigado. Até estimo Quando ellas sahiram despedaçou os versos. E até ao jantar, movendo-se pelo quarto, tomado de desespero, pensou em fugir d'Oliveira d'Azemeis. Tinha a certeza de que o seu genio, na frequentação do Vasco, entre os unguentos e os bocaes, pereceria como um lirio desfolhando-se n'urna caverna. Porque não iria para Paris, ser operario, amar uma Mimi republicana do Faubourg St. Antoine e cons pirar contra o Imperio ? Pensou em ir para Lisboa, fazer-se escudeiro n'uma casa fidalga, onde a sua figura e as suas replicas profundas lhe dariam bem depressa o amor da senhora condessa ou da mulher do banqueiro . ,
Mas tinha as desesperações superficiaes — e d'ahi a dias, com o casaco de laboratorio que pertencera ao habil Alfredo, preparava resignadamente, sob o olhar paternal do Vasco, a sua primeira garrafada de mistura salina,
Consolava-se achando na sua sorte similitudes com biographias illustres : pensava em Michelet impressor, em Proudhon conduzindo pelo Rhodano carregações de madeira ; lembreva-se da phrase de Damião : o homem moderno deve trabalhar com as suas mãog e philosophar com o seu cerebro. » Depois, eram sete mil e quinhentos por mez . , ,
Do resto o trabalho era breve. O principal negocio do Vasco consistia n'umas Pastilhas peitoraes que inventara e de que fornecia todo o dist,ricto. Á noite, dispensava Arthur : a essa hora D. Galathea descia á botica e o Vasco, apesar d'A sua confiança na virtude heroica do novo praticante, não queria, por systema, depois do lusco-fusco, corações de vinte annos na botica Temia sobretudo a noite como mais propicia ás fraquezas ternas e á passagem de bilhetinhos subrepticiog, destruidores da sua honra.
Depois, veio-lhe outra felicidade. Uma manhã, que estava só na botica, a porta abriu-se, como arrombada, e appareceu o collosso do Theodosio. Viera á Villa. de passagem : vinha buscar pastilhas do Vasco para uma « pequena que se lhe encatar rhoara» ; fez estalar os ossos do caloiro com um abra co, chalaceou sobre a botica, convidou-o a ir á quinta, e, ouvindo-o queixar-se do aborrecimento da Villa, da falta de livros, exclamou divertido :
— Ah, caloiro, é isso que te falta Caramba, está a calhar ! Eu trouxe dous caixotes atulhados de livraria, mas lá na quinta não me servem de nada. . . Se queres, mando„te para cá um caixote . . , Ou ambos ! Tem cuidado com encadernações, que lá n'isso faço gosto.
Dás-me a vida, Theodosio !
— Pois valeu, caloiro I
A chegada dos douB caixotes, uma tarde, foi um alvoroço na casa dag Corvellcs, Arthur precipitara-se em cabello da pharmacia. E Ricardina que subira ao quarto a vêr-lh'os destapar, aterrou-se deante d'aquelles montões de volumes amarellos em que de certo se deviam tramar cousas contra a Religião :
— Tu vaes tresler, menino Olha não te faça mal !
Depois do chá, aferrolhou-se no quarto, atirouse ao seu thesouro, sofregamente, como se tivesse achado no quintal uma panella de dinheiro. Eram romances, poemas, criticas: dramas, philo,sophi'1R Mas só os poetas o attrahiam e ia atravez dos volumes espalhados na cama, lendo uma pagina ou uma estrophe, logo passando a outra, avido de versos sonoros, de dialogob'> de adjectivos ricos, e cada livro lhe renovava aquella, exaltação especial do tempo de Coimbra, acordando-lhe na alma antigos enthusiasmos do Cenacuto,
Com Victor Hugo, sentiu-se outra vez pantheista, confundiu-se na alma Universal do Ser, declamou :
Arbres, rochas, roseaux, tout vit I Tout est plein d'êmes I
Todo o platonismo dos mezes em que amaro idealmente, lhe voltou, com languidezes elegñeaa que lhe passavam na alma, relendo em Lamartine :
Un soir, t'en souviens tu, nous voguions en silence I
E os lambes de Barbier fizeram-lhe bater o coração de novo, com as aspirações d'uma democracia lyrica :
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.