Por Eça de Queirós (1912)
O Sol descia ao longe, vermelho como uma amora. Nenhum rumor cortava a placidez do ar. Os homens pareciam estar muito longe: - a depois daqueles dias passados na cidade empestada, Cristóvão sentiu toda aquela serenidade entrar-lhe na alma como uma carícia sem fim. Mas lembrava todos aqueles que deixara, e mesmo lhe parecia ver certos detalhes – a casa da esquina onde ele ia levar pão às crianças abandonadas, o velho a quem ia chegar a bilha da água. Decerto sentia a falta desses seres que socorria: - mas naqueles ermitas havia tanta fraqueza, tanta necessidade, que decerto seria doce ocupar-se desse serviço. O sol desaparecera. Todo o vale de rochas estava negro. Por vezes uma grande pássaro escuro esvoaçava. Uma estrela pequenina luzia, depois outra. O santo prior orava, com a face sobre a terra fria. E Cristóvão, cansado, estendeu o imenso corpo na terra, adormeceu.
Alta noite acordou: - um som lento, desolado, de buzina, caía de rocha em rocha pelo silêncio da serra. Era como o apelo de uma coração aflito: - e imediatamente o prior, correndo de dentro da cabana, se atirou de joelhos diante da cruz, rezando, com furor tumultuoso. De certo, longe, algum irmão estava sofrendo uma tentação do Inimigo, e já meio vencido, soprava a buzina avisando a todos os ermitas para que o ajudassem com as suas orações a rechaçar Belzebu. Sentado no seu rochedo, Cristóvão olhava, cheio de simplicidade, sem compreender, com as mãos pousadas sobre os joelhos – quando de outro lado da serra, lá no cimo, outra buzina soou, chamando socorro para outra alma atacada. Mais tumultuosas se precipitaram as orações do ermitão. Mas a buzina ressoava mais aflita! E então o santo homem, desesperado, gritou a Cristóvão que acendesse uma fogueira perto da cruz, para que ela, destacando em negro sobre o vermelho do lume, fosse vista pelos demônios, que nessa noite pareciam dar um ataque terrível à santa montanha.
Ferindo lume com duas pedras, Cristóvão, rapidamente, fez uma fogueira, soprando com as faces inchadas: a lenha nova estalou, uma chama subiu, outros lumes em breve apareceram na negrura da serra: - e os sons das buzinas decresciam como as ânsias de um coração que sossega. Um silêncio pesou então. Cristóvão cerrara as pálpebras. E o prior, um momento, aqueceu à chama as suas mãos trêmulas.
Mas os seus olhos fixavam-se na chama, com uma atração crescente: um clarão de cobiça iluminava-lhe a face, e a sua língua apareceu à beira da boca seca, como adiantando-se para uma grande peça de carne tenra, vermelha. chiando ainda no largo prato onde fora assada... Chegou mesmo a estender a mão aberta. Mas deu um grito. Onde tinha ele os espíritos que não reconhecera uma ilusão do Inimigo, que o vinha tentar pela gula?! Furioso, ordenou a Cristóvão que apagasse a fogueira.
Com os braços em cruz, passeou então no estreito terraço bordado de pedras. A sua boca seca mascava com um ruído contínuo: - e ia balbuciando orações. Os olhos de Cristóvão, fixos no brasido vermelho que restava do fogo, iam-se cerrando. Toda a montanha se calara. E como insensivelmente atraído, o ermita voltou a olhar o brasido, que vermelhava numa brasa viva. O que ele agora via eram montões de dinheiro, ducados de ouro, montes de rubis escarlates que se esboroavam, numa infinita rutilação de tesouros. Bastava baixar a mão, e teria tesouros para comprar um condado, erguer catedrais, assalariar mercenários, comprar jóias às rainhas, ter todas as satisfações do poder, e do amor, e do orgulho eclesiástico. E todavia o ermita sorria, sacudia a barba branca, murmurando: “Bem vejo a tua ilusão, oh Maldito, que me julgavas desprevenido! Mas a minha alma está forte, e nela, como o arqueiro na torre, a oração vigia, cheia de força!...” E com o pé espalhou os carvões ardentes. E Cristóvão pensava na sua simplicidade: “Quantas coisas vê este homem, que eu não vejo! Decerto é por causa da sua sabedoria ou da sua santidade”.
No entanto, o ermita recolhera à sua cabana: mas, apenas entrara, soltou um grito, e saiu recuando, com os braços abertos, que pareciam sacudir uma visão. Era uma mulher, de esplêndida brancura e toda nua, que ele encontrara deitada de costas sobre o seu catre de folhas, com braços abertos que o esperavam e o chamavam. E durante um momento, as suas mãos, como impelidas por força oculta, tinham-se estendido para ela irresistivelmente: mas nos pés, tão brancos, reconhecera um pé de cabra – e tendo-se benzido freneticamente, a mulher evaporara-se, como um fumo negro, através dos ramos da cabana. Mas quase cedera à temerosa ilusão – e se no momento em que lhe estendia os braços tivesse morrido, era o Inferno, a danação completa! Então agarrou violentamente as disciplinas,e arrancando a túnica, gritou: “À obra, à obra santa!” As duas correias de couro de boi, armadas de unhas de ferro, cingiam-lhe a cinta, rasgavam-lhe a pele do dorso. A cada golpe, dava um gemido rouco: mas, pouco e pouco, de duros e aflitos os gemidos tornaram-se lentos e lânguidos: - e o pobre ermita, a cada vergastada, murmurava: “Socorro, meu Senhor, socorro, que estes golpes que dou em mim começam a ser com um contato delicioso!... Faz que eu sofra, Senhor! Dá ardor infinito aos vergões que sulcam a minha carne! Sopra para dentro das feridas a tua cólera! Que ela me queime e arda, como um pez inflamado!...” E, de repente, caiu como morto, com os braços estendidos.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. São Cristóvão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16237 . Acesso em: 29 jun. 2026.