Por Eça de Queirós (1875)
Outubro findava, as férias tinham acabado. Uma noite o alegre rancho da Sra. D. Maria da Assunção e das amigas fora dar um passeio ao luar. À volta, porém, erguera-se vento, nuvens pesadas empastaram o céu, caíram gotas de água. Estavam então junto a um pequeno pinheiral, e as senhoras, aos gritinhos, quiseram abrigar-se. Agostinho, com Amélia pelo braço, rindo alto, foi penetrando longe dos outros na espessura; e então, sob o monótono e gemente rumor das ramas, disse-lhe baixo, cerrando os dentes:
- Estou doido por ti, filha!
- Creio lá nisso! murmurou ela.
Mas Agostinho, tomando subitamente um tom grave:
- Sabes? talvez eu tenha de me ir amanhã embora.
- Vai-se?
- Talvez; não sei ainda. Além de amanhã é a matrícula.
- Vai-se... suspirou Amélia.
Ele então tomou-lhe a mão, apertou-lha com furor:
- Escreve-me! disse.
- E a mim, escreve-me? disse ela.
Agostinho agarrou-a pelos ombros e machucou-lhe a boca de beijos vorazes.
- Deixe-me! deixe-me! dizia ela sufocada.
De repente teve um gemido doce como um arrulho de ave, e abandonava-se - quando a voz aguda de D. Joaquina Gansoso gritou:
- Há uma aberta. É andar! é andar!
E Amélia, desprendendo-se, atarantada, correu a agachar-se sob o guarda-chuva da mamã.
Ao outro dia, com efeito, o Sr. Agostinho partiu. Vieram as primeiras chuvas, e dentro em pouco também Amélia, a mãe, a Sra. D. Maria da Assunção voltaram para Leiria.
Passou o Inverno.
E um dia, em casa da S. Joaneira, D. Maria da Assunção deu parte que o Agostinho Brito, segundo lhe escreviam de Alcobaça, tinha o casamento justo com a menina do Vimeiro.
- Cáspite! exclamou D. Joaquina Gansoso, apanha nada menos que os seus trinta contos! Olha o meco!
E diante de todos Amélia rompeu a chorar.
Amava Agostinho; e não podia esquecer aqueles beijos de noite no pinheiral cerrado. Pareceulhe então que não tornaria a ter alegria! Ainda lembrada daquele moço da história do Tio Cegonha, que por amor se escondera na solidão de um convento, começou a pensar em ser freira: deu-se a uma forte devoção, manifestação exagerada das tendências que desde pequenina as convivências de padres tinham lentamente criado na sua natureza sensível; lia todo o dia livros de rezas; encheu as paredes do quarto de litografias coloridas de santos; passava longas horas na igreja, acumulando Salve-Rainhas à Senhora da Encarnação. Ouvia todos os dias missa, quis comungar todas as semanas - e as amigas da mãe achavamna "um modelo, de dar virtude a incrédulos" !
Foi por esse tempo que o cônego Dias e sua irmã, a Sra. D. Josefa Dias, começaram a freqüentar a casa da S. Joaneira. Dentro em pouco o cônego tornou-se o "amigo da família". Depois do almoço era certo com a sua cadelinha, como outrora o chantre com o seu guarda-chuva.
- Tenho-lhe muita amizade, faz-me muito bem, dizia a S. Joaneira. Mas o senhor chantre não há dia nenhum que me não lembre dele!
A irmã do cônego tinha então organizado com a S. Joaneira a Associação das Servas da Senhora da Piedade. A Sra. D. Maria da Assunção, as Gansosos "filiaram-se"; e a casa da S. Joaneira tornou-se um centro eclesiástico. Foi esse o momento melhor da vida da S. Joaneira; "a Sé, como dizia com tédio o Carlos da botica, era agora na Rua da Misericórdia". Parte dos cônegos, o novo chantre, vinham todas as sextas-feiras. Havia imagens de santos na sala de jantar e na cozinha. As criadas, por escrúpulo, eram examinadas em doutrina antes de serem aceitas. Ali muito tempo fizeram-se as reputações: se se dizia de um homem: não é temente a Deus, havia o dever de o desacreditar santamente. As nomeações de sineiros, coveiros, serventes de sacristia arranjavam-se ali por intrigas sutis e palavras piedosas. Tinham tomado um certo vestuário entre o preto e o roxo; toda a casa cheirava a cera e a incenso; e a S. Joaneira, mesmo, monopolizara o comércio das hóstias.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1791 . Acesso em: 29 jun. 2026.