Por Eça de Queirós (1900)
Gonçalo gracejou, sentado no banco, junto de Sanches Lucena. - Oh! o Bom Samaritano não merecera uma página tão amável no Evangelho, somente por oferecer o burro a um Levita doente: decerto mostrara virtudes mais belas... - E sorrindo para D. Ana, que, do Outro lado de Sanches Lucena, espalhava a luneta, com lentidão majestosa, pelas árvores e pela Fonte que tão bem conhecia:
- Há dois anos, minha senhora, que eu não tenho a honra...
Mas Sanches Lucena despediu um grito:
- Oh! Sr. Gonçalo Ramires! V. Exa. traz sangue na mão!
O Fidalgo reparou, espantado. Sobre a luva de camurça branca ressaltavam duas manchas arroxeadas:
- Não é sangue meu! foi naturalmente quando o Solha montou, e eu lhe segurei o péescalavrado...
Arrancou a luva, que arremessou para as ervas bravas, por trás do banco de pedra. E continuando o sorriso:
- Com efeito, não tenho a honra de encontrar a V. Exa., minha senhora, desde o baile do Barãodas Marges, em Oliveira, o famoso baile de Entrudo... Há mais de dois anos, era eu estudante.
E ainda me recordo que V Exa. estava vestida esplendidamente de Catarina da Rússia...
E, enquanto a envolvia no sorrir dos olhos finos e meigos, pensava: - "Formosa criatura! mas ordinária! e que!..." D. Ana também se recordava do baile dos Marges:
- O cavalheiro, porém, está equivocado. Eu não fui de Russa, fui de Imperatriz...
- Sim, de Imperatriz da Rússia, da Grande Catarina... E com um gosto! com um luxo!
Sanches Lucena voltou vagarosamente para Gonçalo os óculos de ouro, apontou um dedo alongado e lívido:
- Pois também eu me lembro que sua mana, e minha senhora, a Sra. D. Graça, trazia um trajede lavradeira de Viana... Foi uma luzidíssima festa; nem admira; o nosso Marges é sempre primoroso... E desde essa noite não tornei a encontrar a mana de V. Exa. em intimidade. Apenas de longe, na missa...
De resto pouco residia agora em Oliveira, apesar de conservar a casa montada, criadagem e cocheira porque, ou culpa do ar ou culpa da água, não se dava bem na Cidade.
Gonçalo acalorou mais o seu interesse:
- Mas então, realmente, V. Exa. o que tem tido?
Sanches Lucena sorriu, com amargura. Os médicos, em Lisboa, não se entendiam. Uns atribuíam ao estômago - outros atribuíam ao coração. Portanto, aqui ou ali, víscera essencial atacada. E sofria crises - más crises... Enfim, com a graça de Deus, e regime, e leite, e descanso, ainda esperava arrastar uns anos.
- Oh! com certeza! - exclamou Gonçalo alegremente. - E V. Exa. não pensa que a estada emLisboa, e as Câmaras, e a Política, a terrível Política, o fatiguem, o agitem?...
Não, pelo contrário, Sanches Lucena passava toleravelmente em Lisboa. Melhor mesmo que na Feitosa! Depois, gostava daquela distração das Câmaras. E como conservava amigos na Capital, uma roda escolhida, uma roda fina...
- Um desses nossos excelentes amigos, V. Exa. decerto conhece. Ele é parente de V. Exa.... OD. João da Pedrosa.
Gonçalo, alheio ao homem, mesmo ao nome, murmurou polidamente:
- Sim, o D. João, decerto...
E Sanches Lucena, passando pelas suíças brancas a mão magríssima, quase transparente, onde reluzia um enorme anel de armas de safira:
- E não somente o D. João... Outro dos nossos amigos é igualmente parente de V. Exa., echegado. Muitas vezes temos falado de V. Exa., e da sua casa. Que ele pertence também à primeira nobreza... É o Arronches Manrique.
- Cavalheiro muito dado, muito divertido! - acrescentou D. Ana, com uma convicção que lhealteou o peito, a que o corpete justo marcava a força viçosa e a perfeição.
A Gonçalo também nunca chegara esse nome sonoro. Mas não hesitou:
- Sim, perfeitamente, o Manrique... De resto, eu tenho tantos parentes em Lisboa, e vou tãopouco a Lisboa!... E V. Exa., Sra. D. Ana...
Mas o Sanches Lucena insistia, deliciado naquela conversa de parentescos fidalgos:
- V. Exa., naturalmente, tem em Lisboa toda a sua parentela histórica. Assim eu creio que V.Exa. é primo do Duque de Lourençal... O Duarte Lourençal! Ele não usa o título, por Miguelismo, ou antes por hábito; mas enfim é o legítimo Duque de Lourençal. É quem representa a casa de Lourençal.
Gonçalo, sorrindo atentamente, desabotoara o fraque, procurava a sua velha charuteira de couro.
- Sim, com efeito, o Duarte... Somos primos. Diz ele que somos primos. E eu acredito. Entendotão pouco de árvores de costado!... De fato as casas em Portugal andam muito cruzadas; todos somos parentes, não só pelo lado de Adão, mas pelos Godos... E V Exa., Sra. D. Ana, prefere a estada em Lisboa?
Mas, reparando que escolhera um charuto, distraidamente o trincara:
- Oh! perdão minha senhora... Ia fumar sem saber se V. Exa....
Ela saudou, descendo as longas pestanas:
- O cavalheiro pode fumar; o Sanches não fuma, mas eu até aprecio o cheiro.
Gonçalo agradeceu, enjoado com aquela voz redonda e gorda, aqueles horrendos "cavalheiro, o cavalheiro!..." Mas pensava: - "que linda pele! que bela criatura!..." E Sanches Lucena, inexorável, estendera o dedo agudo:
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.