Por Camilo Castelo Branco (1862)
Coadjuvada pelo serviçal português, que me aconselhara, vendi em Londres as melhores peças do meu cofre e apurei uns doze contos de réis. Cheguei a Lisboa e aluguei uma casinha agradável em Buenos Aires. Procurei minha irmã e encontrei-a com muita dificuldade, reduzida ao extremo aviltamento. Em menos de um ano, a infeliz descera a escala da abjecção, que outras descem em muitos anos de libertinagem, com reveses de miséria e luxo. Se alguma vez passou numas ruas imundas da cidade alta, onde as mulheres competem em palavras obscenas com os marinheiros embriagados, já sabe onde eu encontrei a primogénita das segundas núpcias de minha mãe.
E minha mãe onde estaria? E minhas irmãs a que destino seriam chamadas?
Levei a desgraçada para a minha companhia. Chorei três dias a contemplá-la; e ela não chorava. Vesti-a com decência igual à minha; levei-a comigo a passeios ao campo; falava-lhe em tudo, menos no seu destino; queria ela contar-me a sua queda, e eu pretextava sempre uma distração para não lha ouvir.
Passados quinze dias, conheci que minha irmã amava o vinho e bebia muito, e ria desentoadamente depois, começava a rir logo de manhã, e chegava ao jantar já completamente embriagada. Chamei o criado a perguntas, e soube que ela bebia genebra em grandes porções e a toda a hora. Aconselhei-a primeiro brandamente, e depois, baldados os bons modos, repreendi-a com severidade. O resultado foi querer ela sair de minha casa e voltar ao sítio donde viera. Estava irremediavelmente perdida. Consenti que se embriagasse e não saísse. Não bastou esta concessão. Um dia desapareceu-me. Fui procurá-la às paragens mais prováveis e não pude achá-la. Só depois de um mês, com auxílio da polícia, pude descobri-la... no Hospital de S. José.
Fui ao hospital. Falei-lhe, e vi que estava de todo desfigurada. Consultei o facultativo da enfermaria e soube que minha irmã estava mortalmente doente de tubérculos pulmonares. Fí-la transportar para minha casa, por me lembrar que no hospital, a religião não poderia dar-lhe esperanças de melhor vida, agonizando ela entre as suas companheiras de desgraça, que continuamente vociferavam torpezas, ou praguejavam contra Deus, enfrenesiadas pelas dores.
Ao sair do hospital, encontrei Augusto. Senti um abalo, como se visse ressuscitado um amigo morto e quase esquecido. Adiantou-se ele para mim, cumprimentou-me, e disse-me que andava estudando Medicina e estava no seu segundo ano, modo de vida que abraçara por ter parentes que o protegiam, conhecedores da malvadez com que o barão o perseguia.
Minha irmã morreu: já não podia vencer a morte. Prestei-lhe quantos auxílios cabiam em forças da amizade e da compaixão. Os paroxismos da infeliz foram tranquilos; e, se as lágrimas valem na presença de Deus, pode ser que o seu inferno fosse o deste mundo somente.
VII
- Foi Augusto visitar-me.
Falou-me do passado, e eu contei-lhe tudo que decorrera desde a sua última carta.
Não lhe ocultei os haveres, que eu tinha em inscrições, compradas com o produto das jóias. Respondi com amizade às reminiscências do seu amor. Pedi-lhe que fosse meu amigo, simplesmente meu amigo, e que não quisesse acordar um sentimento que por pouco nos não fizera a ambos desgraçados sem refúgio.
Encarreguei-o de indagar a sorte de minha mãe. Soube que ela, desde a morte do barão, estava vendendo os móveis para se sustentar e que, em breve, na opinião dos informadores, teria as filhas em conta de móveis. Augusto, industriado por mim, pôde falar às meninas, na ausência da mãe, e persuadiu-as a fugirem para a minha companhia; o que elas prontamente fizeram. Ao mesmo tempo, mandei dar a minha mãe uma mesada, com a certeza de que as faria educar e preparar para um virtuoso destino.
Parece que o senhor às vezes se mostra espantado desta linguagem na boca da mulher que ontem encontrou às onze horas da noite!...
- Dizes bem, Marcolina; às vezes espanto-me. Tenho-te ouvido falar em virtude não sei quantas vezes!
- Uma.
- Só uma?! Será: mas tens tido raptos de eloquência religiosa que cabiam muito bem num livro espiri-
tual.
- E daí que conclui? Que sou hipócrita?
- Não: concluo apenas que és mulher, mistério enigma, absurdo, paradoxo, mescla de luz do Céu, e lavareda do Inferno, demônio e anjo, etc. Continua, que eu enquanto te não vir desfalecida de falar, não te lembro que devemos jantar hoje.
- Pois então jantemos, que eu não penso mais. Parte-se-me o peito com dores; preciso descansar, porque há seis anos que não falo tanto, meu amigo. Estou admirada do bem que me faz o ar do campo. Ainda não tossi desde que cheguei a Sintra.
- Pois tu tens tosse?
- Tenho a tosse da tísica.
- Estás tísica?
- Parece-me que sim... Não falemos em moléstias. Vamos jantar debaixo das árvores: pode ser que eu chore, e o Sr. Silvestre também. Felizes os que choram... É a única felicidade que eu posso dar-lhe.
Estava o jantar na mesa.
Entre parênteses do editor
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Coração, Cabeça e Estômago. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1781 . Acesso em: 28 jun. 2026.