Por Camilo Castelo Branco (1864)
E escrevi-te, Afonso! Aquele papel era uma renunciação, aquelas palavras queriam dizer dá-me a perdição como salvamento; dá-me a infâmia como glória; o mundo vai apedrejar-me, e eu cuidarei que ele me aclama virtuosa; todas as devassas me julgarão indigna delas; eu, contente da minha desonra, estenderei benignamente a mão a todas as miseráveis que ma cuspirem.
E tu, Afonso? Como me julgaste morta para a virtude, aproximaste-te do cadáver, puseste-lhe sobre o peito um pé, calcaste, viste-lhe nos lábios o sangue do coração, e escarraste-lhe!
Voltei do outro mundo. A mulher que viste há pouco era um fantasma. Os cabelos negros que adornaste com três flores naqueles formosos quinze anos caíram-te aos pés.
As flores vêm aradas do fogo do inferno. O fantasma voltou às suas labaredas, para nunca mais te crestar o riso dos lábios com as chamas dos seus olhos. Vai tu ao Céu e pede a Deus que me deixe adorar-te na eternidade das penas. Pede-lhe que me dê eternidade para a expiação e eternidade para o amor Adeus."
Não sei bem dizer de onde me vieram as lágrimas. Sei que terminei a leitura da carta já quando os olhos mal discriminavam as letras.
Como a gente, às vezes, chora!...
Era o estilo!
XI
Sorriu Afonso do meu melindroso sentimentalismo, retorceu distraidamente os longos bigodes por sobre a barba listrada de fascículos brancos, afogueou o seu cachimbo de barro negro e continuou:
"Eu é que verdadeiramente chorava, quando acabei de ler esse papel. Ficas sabendo a impressão que em mim fez a carta de Teodora. Não há vergonha que eu omita nesta confissão geral. Sou o juiz do homem que fui. Julguei-me e condenei-me ao opróbrio de levantar da lama o coração velho e mostrá-lo com náusea ao enojo dos que vão passando..."
- Mas eu não vejo aí coisa indecorosa de que te envergonhes!... - atalhei. - Vês, pelo menos, a baixeza do meu espirito, senão antes a crassa sandice de pensar que as acusações de Teodora estavam justificadas por essa frandulagem de palavras sonoras e apóstrofes melodramáticas. O castigo da minha misérrima estupidez virá depois... Lá chegaremos.
"Li terceira vez a carta e abri a janela do meu quarto. O vento ramalhava nas carvalheiras e o céu daquela noite não tinha uma estrela. Apeteci embrenhar-me na escuridão do arvoredo. Abri de manso a porta do meu quarto e, pé ante pé, ganhei a varanda, de onde era fácil o saltar à rua. Acabava eu de saltar, quando do escuro de uma janela contígua à varanda me surdiu a voz de Mafalda. "Não tinhas necessidade de saltar, primo", disse ela. "Chamasses, que se te abriam as portas.
""Estás a pé ainda, minha prima?", perguntei eu corrido da surpresa e algum tanto contrariado da espionagem. "Nunca me deito mais cedo", respondeu ela com brandura.
"Quando as noites são assim tristes, gosto de as ver... Está vento, primo", continuou retirando-se; "não estejas aí ao ar desamparado. Boas noites."
"E fechou rapidamente a janela. "Encaminhei-me à alameda dos banhos, na inepta esperança de ver ali os vestígios de Teodora, ou não sei se ela mesma. Não sei ao que ia. E impossível explicar o intento que nos impele em casos semelhantes, quando a gente, alguns anos depois, inquire de si mesmo o sentido das suas intenções: são actos estranhos à razão, dos quais só pode desculpar-se o delírio. A verdade é que eu fui à alameda e andei, palmo a palmo, recordando-me do local em que ela me saiu e a direcção que tomara na retirada.
Sentei-me num dos bancos de pedra e conjecturei se ela teria estado ali sentada. Cerrei ouvidos a todos os rumores para escutar o som das palavras de Teodora, que me ecoavam do intimo do coração. Atirei com a alma suplicante e desesperada àquele céu de bronze, negro como ela. Pedia a Deus o esquecimento da mulher, com a veemência do justo atribulado que pede a coroa do triunfo.
"Levantei-me e andei por as trevas, esbarrando nas árvores e refrigerando o fogo da testa e mãos nas fontes e charcos que topava. Ao raiar da manhã, estava eu nas raízes da Falperra. Senhoreou-me então um sono letárgico e invencível. Adormeci com a face encostada à raiz de uma árvore, e acordei, coberto de camarinhas de orvalho, ao calor dos primeiros raios de sol. Retrocedi pela estrada das Taipas e entrei em casa quando meu tio Fernão, admirado da minha falta, andava indagando dos criados se eu saíra de madrugada.
"Mafalda apareceu-me com o semblante pálido, os olhos raiados de muito chorar e o azul-violeta das olheiras carregado e distendido até meia face. Meu tio ligeiramente aludiu à minha falta na presença da filha. Saímos da mesa de almoço e entrámos na sala, onde Mafalda recordava as suas músicas ao piano e, algumas vezes, se acompanhava cantando. Neste dia, a adorável penitente sentou-se ao piano; e, com uma só das mãos dedilhou umas toadas monótonas, mas celestialmente saudosas e melancólicas.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Salvação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=88534 . Acesso em: 28 jun. 2026.