Por Lima Barreto (1921)
Não sabemos se tal coisa é verdade. Mas, lemos a notícia em um jornal de São Paulo, A Capital, de 12 do corrente mês. Ei-la:
“Academia Brasileira de Letras – Rio. 12 – Afirma-se aqui, que, para a vaga do saudoso Barão Homem de Meio na Academia Brasileira de Letras, será eleito o Senhor Veiga Miranda, redator-chefe da edição paulista do Jornal do Comércio e festejado autor de Pássaros que fogem, Redenção e Mau Olhado.
“Dizem que o ilustre escritor, cujas obras já mereceram a crítica entusiástica de acadêmicos como Oliveira Lima, José Veríssimo, Mário de Alencar e João Ribeiro, terá os votos dos Senhores Félix Pacheco, Alcindo Guanabara, Afrânio Peíxoto, Pedro Lessa, Coelho Neto, Luís Murat, Emilio de Meneses, Magalhães Azeredo, Augusto de
Lima, Ataulfo de Paiva, Antônio Austregésio, Oliveira Lima, Mário de Alencar, João Ribeiro, Silva Ramos, Afonso Celso, além de outros. Segundo cálculos aqui feitos, o Senhor Veiga Miranda terá mais de 25 votos, contando-se dentre eles o do Senhor Conselheiro Rui Barbosa.”
Não pomos em dúvida os méritos do prematuro candidato. Contudo tomamos a liberdade de lembrar que o Brasil é bem grande, possui muitos escritores, talvez demais para os leitores efetivos.
Sendo assim, pode aparecer, até que se dê a eleição, um candidato com tantos méritos ou mais do que os do senhor Veiga Miranda.
É de crer que os imortais da Praia da Lapa , ao serem chamados para escolher um novo colega, levem em conta os títulos intrinsecamente literários dos postulantes e não quaisquer outras razões sentimentais, sociais ou políticas.
Julgando que se tenha dado isso sempre no ânimo dos membros da ilustre companhia, não queremos crer que desde já tantos nomes respeitáveis tenham hipotecado os seus votos a um certo e determinado candidato, sem conhecer os outros.
É preciso lembrar que há entre tais nomes o do senhor Ataulfo de Paiva, que além de ser um curioso escritor da mais apurada elegância, é juiz de carreira, desembargador atualmente, devendo ter naturalmente um perfeito hábito de julgar.
Não nos é lícito acreditar, portanto, no telegrama do nosso colega de São Paulo.
Os imortais citados no telegrama do vespertino paulista, como juizes que vão ser, esperarão os outros candidatos para então se pronunciarem com toda a honestidade a respeito.
As tradições de virtude, de austeridade e independência da academia são a mais perfeita garantia de que a nossa suposição não é sem base.
Lanterna, Rio, 17-1-1918.
O QUE É ENTÃO?
Conheço de nome, o senhor Múcio da Paixão , há muitos anos. Não há revista de teatro, daqui e dos Estados, onde não se encontre sempre alguma coisa dele...
Habituei-me a estimá-lo por esse profundo e constante amor as coisas da ribalta. Gosto dos homens de uma única paixão. Não é pois, de estranhar que tivesse lido, há dias na Gazeta do Povo, de Campos, com todo o interesse um artigo seu sobre uma troupe sertaneja que andou por aqui, estando na ocasião naquela cidade. Li-o com tanto interesse quanto a leitura de um outro jornal da rainha da Paraíba me havia deixado uma desagradável impressão. É o caso que A Notícia de lá anunciava o furto de 1:500$000 feito a uma quitandeira espanhola, com o título – “Um grande roubo”. Imaginei logo a bela cidade do açúcar dos ministeriais Meireles Zamiths & Cia, muito pobre a ponto de classificar tão pomposamente um modestíssimo ataque a propriedade alheia. Abandonando a A Noticia, e encontrando no então jornal campista, o artigo do senhor Múcio, apressei-me em lê-lo para esquecer o julgamento desfavorável que fizera antes.
O senhor Múcio gabara muito a troupe, tinha palavras carinhosas para os sertanejos de todas as partes do Brasil, mesmo para aqueles da turma em espetáculos na cidade, que tocavam nas violas a Cavalaria Rusticana e a Carmen. Só ao tratar da cidade do Rio de Janeiro, é que o senhor Múcio foi áspero. Classificou-a de – a menos brasileira das nossas cidades. Eu quisera bem que o escritor campista me dissesse as razões de tal julgamento. Será pela população? Creio que não...
O último recenseamento desta cidade, feita pelo Prefeito Passos, em 1890, acusava para ela a população total de 811.443 habitantes, dos quais 600.928 eram brasileiros e os restantes 210.515, estrangeiros. Não se pode, creio eu, dizer que uma cidade não é brasileira quando mais de dois terços de sua população o são. Convém ainda reparar que, no número dos estrangeiros, estão incluídos 133.393 portugueses, mais da metade do total de forasteiros, fato de notar, pois os lusitanos muito pouco influem para a modificação dos costumes e da língua.
Se não é na população que o senhor Múcio foi buscar base para a sua asserção, onde foi então? Nos costumes? Mas que costumes queria o senhor Múcio que o Rio de Janeiro tivesse? Os de Campos? Os da Bahia? Os de São Gabriel?
(continua...)
BARRETO, Lima. Vida urbana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2171 . Acesso em: 8 maio 2026.