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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

— Não, filha; aqui onde me vês estou saindo do dique. Ceei ontem em casa da Melanie e foi um estrupício! Só hoje, às duas da tarde, achei a minha cabeça. Ah! Vocês não imaginam: eram umas vinte mulheres e belas! Divinas! Encantadoras e estúpidas como a Vênus de Milo. Havia lá uma Hortênsia, de Guaratinguetá, deliciosa! Quando viu as alcachofras rompeu a rir, dizendo que aquilo nem parecia repolho e pediu queijo para os espargos tomando-os por macarrão. Um encanto!

— E as outras? — perguntou Anselmo.

— Tudo besta! Foi entre a ignorância e a beleza que passei a noite e estou cheio de solecismos e de pecados. Já li uma página purificadora e agora... Tomou um ar beato, espalmou a mão no peito, baixou a cabeça e murmurou: Pretendo amanhecer no Castelo para purificar-me no seio de um capuchinho. Depois da confissão atiro-me ao Gibert. Bem com Deus e com o Gabiso, este é o meu programa. Bramiu: A mitologia está errada! Vênus teve dois filhos gêmeos: Amor e Mercúrio. Estirou-se, amolecido:

— Estou morto! Mas logo, sungando o corpo, dirigiu-se a Anselmo:

— E você previna-se, meu amigo: saia dos braços dessa criatura e mergulhe num Jordão de iodureto.

— Não é preciso, disse Amélia erguendo-se irritada.

— Quê? Estás zangada? Neiva está brincando. Então Neiva não pode brincar...?

— Sim, mas eu não gosto de brincadeiras dessas..

— Está bem, rasgo a receita. Adeus! Vou dar um dedo de prosa ao Vasques. Até amanhã! Foi-se.

— Vamos? — convidou Amélia.

— Vamos.

— Eu fico, disse o Duarte. Sejam muito felizes. E, como o caixeiro apresentasse a nota, ele segredou ao estudante:

— Então? Viste como se manobra? Ainda podes almoçar e jantar amanhã, com vinho. Adeus!

— Boa noite! E os dois saíram aconchegados.

Anselmo propôs tomarem um carro. Amélia, porém, preferiu o bonde e foram, como um casal de noivos, muito juntos, extasiados, de mãos unidas, fazendo protestos de amor até a morte.

CAPÍTULO V

A casa estava em silêncio. A candeia, diante da escada, espichava uma chama comprida e fumarenta alumiando os primeiros degraus, o resto do lance perdia-se na escuridão e foi aí, nesse tenebroso e arriscado sítio, que o primeiro beijo longo selou o juramento passional feito no bonde. Ruy Vaz e Toledo dormiam a sono solto quando os dois atravessaram a sala em passos surdos, a caminho do quarto do misantropo. Anselmo ia riscando fósforos pelo corredor por onde os ratos fugiam atropeladamente.

Oh! Essa primeira noite, desde que um sopro extinguiu a luz! Ó ardentíssimo Bartriari. Ó pensador Babravia e tu, voluptuoso brâmane Vatsyayana, autor dos shastras fesceninos; e tu, Ovídio; e tu, Propércio, vós todos quantos cantastes o delírio erótico em estrofes mais estimulantes do que a decocção afrodisíaca da Uchala ou do que o mel do Hymeto, doce e rejuvenescedor, que admiráveis páginas daríeis se pudésseis, de um canto, velando, como velaram Anselmo e Amélia, ouvir as entrecortadas palavras trêmulas, ouvir os beijos alucinados e...

Se conhecêsseis a qüinquagésima estrofe do 8o canto do poema do Ariosto:

"Tutti le vie, tutti li modi tenta;

Ma quei pigro razzon non peró salta: Indarno li fren gil scuote e lo tormenta; E non puó far que tenga la testa alta.

Alfin presso alla donna s'addormenta.

..........................................................."

Imaginai o oposto dessa miseranda cena entre o eremita e Angélica, na praia; imaginai e tereis o que aquelas paredes graves da alcova ascética do triste não viram, mas ouviram, se, em verdade, as paredes têm ouvidos.

Depois dessa noite febril, Anselmo, como se houvesse perdido a noção do seu destino, esqueceu os livros à poeira e à traça, esqueceu sobre a mesa desordenada as primeiras tiras do romance, que tão interessadamente começara por uma larga descrição da vida rural com muita bucólica, sob um sol abrasado, entre cabanas e matas virgens, louros canaviais e águas fugitivas e os dias, ou passava-os molemente estirado na cama, a repousar da noite esperando a noite, ou ia gastá-los em casa de Amélia, muito lúbrico, enquanto Ruy Vaz, em excitada febre de trabalho, mal aparecia aos amigos e o Toledo, com todos os ossos do crânio na cabeça, passava à coluna raquidiana, passeando pelo corredor com vértebras na mão e vértebras nos bolsos.

Amélia mudava-se paulatinamente para a rua Formosa. Alta noite, um tílburi parava à porta e Toledo, o paciente anatomista, era despertado para ceder o quarto e, sem queixa, com os retratos respeitáveis e o seu lençol, transferia-se para a cama de Anselmo; e a atriz instalava-se. Já no mirante, ao sol, vestidos tufavam-se, meias de seda rolavam pela casa; nos cabides, juntamente com os paletós e as calças, havia camisas e saias rendadas, um chapéu, cercado de plumas, enfeitava, como um ornato extravagante, a mesa do autor de A Profecia e, nos róis de Anselmo apareciam, na promiscuidade das ceroulas e dos colarinhos, calças de senhora, saias brancas, camisas e outros panos adjacentes.

(continua...)

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