Por Raul Pompéia (1880)
As impressões que cada frase do sacerdote causara nos seus ouvintes não se descreve. A princípio uma curiosidade indomável, em seguida uma comoção que se traduzia por torrentes de lágrimas. Quando ouviu falar de seu pai afogado no rio Amazonas, Rosalina lançou-se ao colo de Branca, soluçando de modo a cortar o coração. Por várias vezes o padre Jorge, compungido diante da dor da menina, teve desejos de interromper a sua narrativa ela. porém. rogava-lhe que prosseguisse. porque queria saber a quem devia a salvação da sua existência. que duas vezes perigara, e quem velava pela tranqüilidade dos seus benfeitores. Ele continuava. Quando declarou que juramento Otávio fizera. um grito es capou-se dos lábios de Eustáquio...
— Oh! criança de heroísmo!
Branca e Rosalina puderam apenas exclamar.. Oh!
Mas esta exclamativa foi uni verdadeiro hino de admiração. entoado em honra de Otávio. Doces lágrimas de gratidão. desprendendo-se das pálpebras de Rosalina. Vieram minorar-lhe a mágoa causada pela história lúgubre da morte do seu pai...
Uma bonança relativa ganhou o ânimo encapelado dos ouvintes do padre Jorge, que, depois de longa pausa, pode terminar:
— Quando o jovem Otávio repetiu-me o seu juramento, quando contou-me, em seguida, que o amigo do seu pai esquecera a promessa feita e que ele sozinho ficara a braços com o cumprimento do que havia jurado, missão que, como me dissera no princípio, ele já desempenhara em parte, confesso-vos que senti por ele alguma cousa que se assemelhava ao respeito. Não tive ânimo de dar-lhe um só conselho. Com os olhos na Providência, conservei-me calado, apertando-o apenas em meus braços.
"Otávio também se calara. Julgava ter dito tudo, e dissera-o com efeito. A explicação de tudo quanto havia de obscuro e misterioso para mim e também para ti, Eustáquio, se podia facilmente depreender daquilo que ele tinha dito.
"Desprendendo-se dos meus braços, Otávio fitou-me com um sorriso que lhe dava uma fisionomia titânica.
"— Adivinhou já o que eu fazia ontem de noite fora da casa? perguntou-me ele. . . Está então satisfeito?
"— Inteiramente, respondi-lhe.
"O menino retirou-se e foi prosseguir na admirável missão que encetara, havia tão longo tempo, salvando nesse mesmo dia a tua Rosalina e avisando-te depois do ataque que os teus inimigos tencionam dar hoje a esta casa.
"Assim, pois, é o valente Otávio Dugarbon o defensor que tantos serviços te há prestado, graças às suas excursões, em uma das quais eu o surpreendi, na noite de 13, que permitem-lhe conhecer os planos tenebrosos dos teus perseguidores.
"Uma cousa talvez te pareça ainda inexplicável: o incógnito de que o bravo Otávio se queria cercar...
— De modo nenhum, padre Jorge. Eu bem compreendo o procedimento do incomparável menino. Ele receava que, em atenção à sua pouca idade, tivésseis vontade de dissuadi-lo das suas resoluções. Por isso, apenas comunicou-vos o seu segredo depois de obter a promessa de que vós não oporíeis ao cumprimento do seu juramento. Não acreditou que me havíeis de dar a conhecer esse segredo e não vos impôs a condição de fazer o contrário, mas vós, dando-mo a conhecer, alcançastes de mim um compromisso que me imobiliza tanto quanto te imobilizou a palavra que deste ao menino. Nada mais do que vós eu posso fazer relativamente ao meu defensor.
— Nem devemos fazer cousa alguma, Eustáquio. A missão daquele rapazinho não vulgar me parece providencial. Deixemo-lo obrar livremente.
Alguns minutos depois que o padre Jorge calou-se, Eustáquio perguntou a Branca e à sua pequena protegida se desejavam ir para S. João do Príncipe, a fim de que não presenciassem o combate com os malfeitores, o qual não havia tardar.
Ambas responderam-lhe simultaneamente que não, porquanto, além de não nutrirem desejo de se apartar dele, não viam perigo algum em permanecer em um lugar tão bem defendido.
Eustáquio concordou com elas. O padre Jorge foi da mesma opinião.
— Deus não permitirá, disse este, que a boa causa sela vencida.
CAPÍTULO XIV
A TRAGÉDIA
Uma dessas tardes enfadonhas de céu cor de chumbo invadia a passos lentos a natureza. As últimas horas do dia pouco destoavam das primeiras. Aos golpes do vento que soprara pela manhã sucedera uma aragem úmida, que punha em agitação os ramúsculos tenros da crista das árvores, e o silêncio no mato se tornara quase absoluto.
Eustáquio e todos os que se achavam com ele sentiam o mal estar que lhes comunicava o tempo. Pelas janelas da casa abertas para o ocidente, podiam ver o sol, que baixava gradualmente para o horizonte, rodeado de nuvens, como gigantesca medalha de ouro envolta em flocos de algodão amarelado; mas as reflexões de cada um não nos deixavam atentar para esse espetáculo.
(continua...)
POMPÉIA, Raul. Uma tragédia no Amazonas. Rio de Janeiro: Typ. Cosmopolita, 1880. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17442 . Acesso em: 6 abr. 2026.