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#Romances#Literatura Brasileira

Luzia-Homem

Por Domingos Olímpio (1903)

— Eu, não. Vendo-me sozinha e desacostumada a trabalhar para comer, não tive remédio senão me resignar à minha sorte e estar por tudo. Quando algum homem se engraçava de mim, eu fingia gostar dele. Encontrei um desalmado que me queria como uma fera; tinha maus bofes e me trazia, ciumento como o demônio, que nem negra cativa. Aquilo não era homem; era o cão em figura de gente. Por qualquer suspeita ficava danado como se me quisesse comer viva. De uma feita, arranchou-se na casa em que morávamos como marido e mulher, um moço rico e bonito, que se pós a olhar muito para mim; e eu, ao levar-lhe o café, cai na asneira de sorrir para ele. Ah! Luzia, se você me visse naquele tempo!... Não é por me gabar, alva como uma imagem, com duas rosas nas faces e carnes rijas como pau!... Meus cabelos pareciam de oiro e meus olhos eram azuis e claros como duas contas. O mundo e a pobreza estragam a gente. Hoje, veja como estou murcha, engelhada, cheia de sardas... Mas, para encurtar razões, quando o moço foi embora, o homem pôs-me de confissão; e, não sabendo eu o que lhe dizer para me desculpar de falta que não me passara pela cabeça, disse-me uma porção de desaforos porcos, nomes de mãe; chamou-me sem-vergonha, safada, deslambida, e, agarrando-me pelos cabelos, deu-me tabefes...

— E você? – perguntou Luzia, indignada.

— Eu chorei muito; lamentei a minha desgraça; jurei por todos os santos do céu, que era inocente, até que ele, com um pontapé, me atirou para dentro da camarinha, berrando possesso: "Anda, peste!... Amanhã não me ficas aqui em casa; ponho-te fora na estrada, onde te apanhei como uma cachorra vadia... "E fechou, com estrondo, a porta. Fiquei na escuridão, imaginando no que faria de mim, quando amanhecesse. Ao mesmo tempo que me fervia o coração, estava contente com verme livre de semelhante bruto; mas tive medo de apanhar outra vez, e esperei quieta o que desse e viesse. – Que me importa – disse comigo – Hei de achar quem me queira ... E, pensando no moço causador daquela desgraceira, peguei no sono, deitada numa rede velha que ali estava armada. Quando os galos estavam amiudando, ouvi bulir na porta; levantei-me de um pulo; fui deitar-me no mesmo lugar onde havia caído e pus-me a soluçar baixinho. Abriu-se a porta, e a claridade do copiar, alumiado por uma vela, deu em cheio sobre mim. Eu estava derreada, no chão, sustendo o corpo com a mão esquerda, enquanto tapava os olhos com as costas da direita, olhando por baixo. O desalmado entrou devagarinho; chegou perto de mim; ficou alguns minutos parado e disse-me, depois, em voz sumida e zangada: "Vá se deitar no seu quarto... " Eu não respondi, nem me mexi; entrei a soluçar mais forte. Tocou-me, então, de mansinho, no braço, dizendo, já com outra voz, manhosa e adocicada – "Teresa, você está zangada comigo?" Repeli o agrado com um safanão do cotovelo. Ele continuou, procurando abraçar-me: — "Este meu gênio!...

Às vezes faço coisas!... Veja: estou arrependido... do que fiz..." Estava quase acocorado junto de mim. "Só o que falta - resmunguei, soluçando mais forte – é mandar-me surrar pelos seus vaqueiros com um nó de peia." - "Perdoa, coração – continuou, tentando ainda me abraçar – Eu não sou mau, mas o ciúme me tira o juízo. Esqueça tudo, minha cunhãzinha da minha alma... Prometo nunca mais te ofender. Pede o que quiseres, benzinho; serei teu escravo..." E, suspendendo-me do chão, levou-me ao colo como uma criança... Todo ele tremia; eu sentia-lhe o baticum do coração; suava e bufava como um novilho... Eu, nem como coisa: zangada, gemendo e soluçando. No outro dia, enquanto ele se derretia e se babava em agrados e promessas, eu imaginava no moço e no Cazuza que, lá do céu, me pedia vingança...

— Você não abandonou logo esse malvado?!...

— A falar a verdade, não era de todo mau. Fiquei por medo e por não ter coragem de começar a vida de novo... Já tinha padecido tanto, que mais um pouco não me fazia mossa. Mal com ele, pior sem ele, que, tirante as venetas de ciúme, era bom para mim; dava-me tudo: era só pedir por boca, como dona de casa... Maridos, casados na igreja, batem nas mulheres, quanto mais... Ora, deixei-me estar, mas pensando sempre que o meu adorado Cazuza nunca me havia maltratado, e que eu devia, mais cedo ou mais tarde, tomar desforra; porque, apesar de franzina, ninguém mas faz, que não as pague, tão certo como Deus estar no céu.

— Vingou-se então?...

— Ora, ora, ora!... Eu lhe conto. Seu Berto (ele se chama Bartolomeu, mas todos o tratavam assim) foi em fins d’água fazer a ferra em uma fazenda dos Crateús. O outro parece que soube disso, e se apresentou uma tarde, debaixo de um pé d'água, que se diria vir o céu abaixo. Eram relâmpagos e trovões de encandear e ensurdecer a gente. Aboletou-se e passou a noite. Soube, então, que era um tal capitão Bentinho, de família muito rica e poderosa. Trajava bem, gibão, guarda-peito, e perneiras de coiro de capoeiro, muito macio, bordados de flores, pospontadas à sovela, com abotoadura e esporas de prata. Não imagina como tinha a cor fina e branca, e uma barba parecida, comparando mal, com a de Jesus Cristo. Como estou falando com o coração aberto, não tenho vergonha de confessar que me engracei dele, acho que por capricho ou por ser em tudo diferente do outro. De madrugada, ainda chuviscando e antes que a gente da casa acordasse, arrumei algumas peças de roupa e meti-as em sacos com alguns patacões dados pelo Berto; e fugimos: ele montado num possante quartau pedrez, eu à garupa. Arre! que foi uma viagem de arrebentar. Tivemos de atravessar muitas léguas de sertão, passando rios a nado, dormindo no mato e comendo de alforje até chegarmos a uma povoação, perto da fazenda onde moravam os pais dele. Aí fui aboletada em casa de uma velha. Passamos três dias como noivos: ele, fino como seda; eu, cheia de denguices e manhas, como rapariga donzela. E contudo, Luzia, você não é capaz de acreditar que, amimada pelo Bentinho, todo delicadezas e cerimônias, tinha saudades do Berto com o seu sangue na gueira, aqueles olhos devoradores, aquela brutalidade...

— É possível?!... Pai do céu!...

(continua...)

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