Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)
Como a Rua do Ouvidor ainda entra na história da conspiração dos inconfidentes de Minas Gerais por curioso episódio que se refere sob a denominação de episódio ou de tradição da maçã, que, plenamente provada, seria preciosa luz histórica. Conta-se a viagem da maçã que o Coronel Francisco de Paula Freire de Andrade por triste e aborrido não quis comer, e mandou-a ao Vigário Padre Toledo, que, ao saboreá-la, achou-lhe miolo muito melhor do que poderia ter imaginado. Terminada a tradição da maçã, diz-se enfim como o Belo Senhor teve de lembrar-se do conselho que Agostinho Fuas lhe dera na Rua do Ouvidor, depois da segunda ceia na saleta do fundo da taberna de Manoel Gago, e como escapando do degredo o Belo Senhor morreu pobre e ignorado na cidade do Rio de Janeiro.
Referindo no capítulo antecedente a tradição de Perpétua Mineira, declarei positivamente que eu a encontrara completada nos meus velhos manuscritos, como estes, porém, não trazem nome de autor, nem baseiam em documentos suas informações, é claro que só me aproveitam para enfeitar estas Memórias; porque fora abuso condenável expor-me a falsificar a história, dando por fatos averiguados alguns devaneios de imaginação.
Podem severos críticos achar de mau gosto o meu repetido recurso aos velhos manuscritos, mas hei de teimar nele: escrevo as Memórias da Rua do Ouvidor; que em seu caráter de rua das modas, da elegância e do luxo merece e deve ser adornada e adereçada condignamente.
Não vendo gato por lebre, desde que previamente declaro a origem e a natureza das tradições, que vou contando a salvar sempre a verdade histórica.
Este cavaco serve de preâmbulo a uma outra e bem curiosa tradição, que pertence um pouco à Rua do Ouvidor; e que seria, na hipótese de chegar por algum modo a averiguar-se, interessante episódio da história da conspiração mineira, que ficou sendo chamada do Tiradentes. É um episódio que eu chamarei da - maçã.
A tradição que passo ao conhecimento dos meus leitores não é das tais dos velhos manuscritos: há sete ou oito anos passados eu a ouvi (como diversas informações sobre alguns inconfidentes) a um bondoso e inteligente fazendeiro de Minas Gerais, com o qual entretive passageiras, mas saudosas, relações aqui no Rio de Janeiro.
O episódio me sorri, me agrada muito, porque vem apoiar o meu juízo sobre os motivos determinantes da Carta Régia de comutação da pena de morte em degredo para os verdadeiros e principais chefes da conspiração mineira em 1789.
Não o mais ilustrado, o principal chefe, porém da famosa conspiração foi por mais rico e mais prestigioso e influente na capitania o Coronel Francisco de Paula Freire de Andrade, o qual era filho natural de Gomes Freire de Andrade, Conde de Bobadela e de D. Maria Correia de Sá e Benevides.
Em outro também, como este, mesquinho trabalho literário, dissimulei o nome da família dessa senhora, chamando-a simplesmente Maria de...: eu podia proceder assim, porque o meu trabalho era e é romance, embora histórico; mas o meu ilustrado e excelente amigo o Sr. Joaquim Norberto de Souza e Silva, escrevendo a sua obra O Tiradentes, declinou os nomes de batismo e de família da mãe do Coronel Francisco de Paula Freire de Andrade com o seu indisputável direito o severo dever de historiador; posso, portanto, fazer o mesmo nestas Memórias, sem inconveniência alguma.
O Coronel Francisco de Paula Freire de Andrade, cabeça da conspiração, pertencia, pois, embora filho natural, pelo lado materno, à família Correia de Sá e Benevides, e pelo paterno à dos Freire de Andrade, ambas nobres e de influência na corte de Lisboa, e que não se submetiam à horrível idéia de que um dos seus morresse na forca.
Principalmente os Freire de Andrade, cujo nome de família o principal chefe da conspiração trazia de seu pai, ardiam por salvá-lo da morte infamante.
Ora, diz a tradição, que ouvi, e é muito verossímil, que as duas famílias, e mais forte e ativamente os Freire de Andrade, se empenhavam com insistente esforço por conseguir, ao menos, comutação da pena de morte para o seu Freire de Andrade.
D. Maria Correia de Sã, diz ainda a tradição, e é muito possível, teve do Conde de Bobadela uma filha, cujo nome não pude guardar, se o meu digno informante me revelou, do que não tenho certeza.
Essa senhora, a quem chamarei simplesmente irmã do Coronel Francisco de Paula, era casada com um rico negociante português estabelecido à Rua do Ouvidor; perto da Igreja da Santa Cruz dos Militares, e, apesar ou com ignorância do marido, que absolutista intransigente, ou talvez temeroso do parentesco fraternal da esposa, maldizia por toda a parte dos perversos inconfidentes, e do cunhado ainda mais que dos outros, ela entretinha correspondência cautelosa, mas solicita, com os Freire de Andrade de Lisboa, interessados em favor de seu irmão.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor. Rio de Janeiro: [s.n.], 1878. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7544 . Acesso em: 4 jan. 2026.