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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Andanças de uma viola de cabaça

Por Gregório de Matos (1696)

Ontem vi no Areal
a trindade das formosas,
que consta de uma beleza
repartida em três pessoas.
Três Irmãs Ana, Leonor,
e a discreta Maricota,
três pessoas tão distintas
e uma beleza entre todas.
Três pessoas, e uma só
beleza a trindade soa,
unidade em formosura,
sendo a trindade das moças.
Mas eu com sua licença
quisera escolher de todas
Maricas por mais discreta,
já que não por mais formosa.
Por mais formosa também
escolhera a Maricota,
que a vantagem da beleza
está no olhar de quem olha.
Não consiste em realidade
a beleza de uma moça;
consiste na inclinação
de quem dela se enamora.
Eu como tão inclinado
aos olhos de Maricota
com licença das Irmãs
a escolho por mais formosa.
Os olhos se vão as mais,
e o coração pede outra,
e o dividir a trindade
é d'almas pouco devotas.
Mas em tal perplexidade,
e em tal pena, em tal afronta,
há de fazer a eleição
o que disser essa copla.

DÉCIMA

Dá-me Amor a escolher
de duas uma devota,
Leonor, ou Maricota,
e eu me não sei resolver:
se me hei de vir a perder
pela minha inclinação
tomando uma, e outra não,
quero, que me dê Amor
Maricota, e Leonor,
por não errar na eleição.

A HUM NEGRO DE ANDRE DE BRITO SOLICITADOR DE SUAS DEMANDAS GRAM
TRAPACEYRO, E ALCOVITERO CHAMADO O LOGRA, A QUEM HUM IMAGINARIO
VAZOU HUM OLHO.

Está o Logra torto? é cousa rara!
Diz que um olho perdeu por uma puta;
Barato o fez, que há puta dissoluta,
Que me quer arrancar ambos da cara.

Oh quem tão baratinho amor comprara,
Que um olho é pouco preço sem disputa;
Se não diga-o Betica, que de astuta
Mais de uma dúzia de olhos me almoçara.

Saí desta canalha tão roido,
E deixaram-me Harpias tão roubado,
Que não logrei da vista um só sentido.

Não foi o Logra não mais desgraçado,
Porque posto que um olho tem perdido,
O outro Ihe ficou para um olhado.

AO MESMO CRIOLLO, E PELO MESMO CASO.

1 Estou pasmado e absorto,
de que o Logra em qualquer pleito
curasse do seu direito,
e agora cure do torto:
ele fora mui bem morto,
porque outra vez não insista
ir, onde se Ihe resista:
mas se noutras ocasiões
requeria execuções,
agora pedirá vista.

2 Ia o Logra perseguindo
pela rua de São Bento
certo calcanhar bichento,
e ia-lhe a Negra fugindo:
quando a Dafne foi seguindo
Apolo pastor de Admeto:
ela por alto decreto
em Louro transfigurou-se,
e agora desfigurou-se,
ao Logra, que fica em preto.

3 A Negra sumiu-se, e quem
não sabe na medicina,
que em se perdendo a menina,
se perde o olho também:
andou o Logra mui bem
em perder o olho então,
porque noutra ocasião
saibam, que o Logra acertado
se co'a preta é desgraçado
com a branca é um Cipião.

4 Dizem as Putas por cá
com rostos muito serenos,
que o Logra cum olho menos
menos as vigiará:
mas quem não afirmará
neste azar, nesta agonia,
que as Putinhas da Bahia
ficam de melhor emprego,
que as guiava um amor cego,
e já agora um torto as guia.

5 Se é certo, que ele investia
as Damas, que acarretava,
quem com olhos se cegava,
sem olhos o que faria?
agora é, que eu temeria,
que ele me guiasse a Dama,
porque suposto que as chama,
será para a sua estufa,
porque quem fechou a adufa,
trata já de ir para a cama.

6 O imaginário impio
quis-lhe o vulto reformar,
e em vez de o aperfeiçoar,
botou-lhe a longe o feitio:
saltou-lhe uma lasca em fio,
e no caso que saltasse,
quis Deus, que o olho lascasse,
porque o escultor estulto
ou corresse ao Logra o vulto,
ou de todo o acabasse.

7 O Imaginário, que há
de todas tantas ventagens,
diz, que é mau para as imagens
o pau de Jacarandá:
mas que outra imagem fará
tão bela, e perfeita, que
sina entre as outras da Sé,
ou que de outro pau, que engenha,
fará um São Miguel, que tenha
o demo do Logra ao pé.

8 O Logra ficou zarolho,
porque o homem na estacada
lhe deu tão boa pancada,
que foi pancada do olho:
correu logo tanto molho
pela cara, que ao cair,
quem foi ali acudir,
disse, que quando chorava
o Logra, ao olho cantava
"ojos, que lo vieron ir".

9 Pelo seu olho gritava,
e quem o não entendia
outra cousa parecia,
que no olho lhe passava:
e demais gente, que estava
na casa atrás do rumor,
vendo o Logra em tanta dor
com o olho fora da cara,
cria, que era, o que o vazara,
prateiro, e não escultor.

10 Dizem por esta Cidade,
que seu Senhor enfadado
de o ver todo, e desairado
lhe quer dar a Liberdade:
bom fora metê-lo frade
na Arrábida, ou em Buçaco,
onde vestido de saco
dê graças ao Criador,
que em estado o pôs melhor
para ser maior velhaco.

A HUMA DAMA QUE LHE PEDIO OS CABELLOS.

(continua...)

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