Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Crônicas#Literatura Portuguesa

Crónicas de Londres

Por Eça de Queirós (1940)

Podia-se, pois, recear que o seu discurso aos eleitores não tivesse nem uma grande altura política, nem um grande valor oratório: mas, realmente, não se supunha que o mancebo pudesse juntar numa oração de um quarto de hora tantas coisas singulares. Começou este moço por dizer – «que realmente não entendia nada, mas absolutamente nada, a respeito de política! Que os seus princípios não importavam também, porque os que lhe queriam bem votariam por ele, sem fazer caso dos princípios!» Depois deste exórdio, o candidato deu a sua opinião a respeito da questão do Oriente, e exprimiu-se assim: «Enquanto à questão do Oriente e se a Inglaterra deve fazer guerra, parece-me que a maior parte dos que me escutam têm amigos no exército e não gostariam de saber que esses amigos tinham tido os narizes rachados, ou as orelhas cortadas; por mim», exclamou, «se há uma coisa a que eu ponha objecção é a que me esborrachem o nariz ou que me cortem as orelhas»» Que lhes parece»? Mas aí vai o melhor: Um eleitor então fez-lhe várias perguntas a respeito das suas ideias sobre a administração local: o nobre lorde fitou-o e respondeu atónito: «Administração local»? É a primeira vez que ouço falar em semelhante coisa!» Gargalhada estridente. O mancebo enfurece-se e grita «que não tem obrigação de saber nada a respeito dessa trapalhada, porque foi tomado de surpresa nesta eleição e só teve um dia para decorar alguma coisa!» – Basta! Basta! – gritaram alguns.

– Também me parece que basta, porque realmente estou farto da maçada! – exclamou o elegante lorde»

No dia seguinte, os influentes do círculo publicaram a seguinte extraordinária declaração, de que dou um resumo:

«Que sentiam muito ter aconselhado Lord Burghley a fazer um discurso, porque, tendo sua senhoria tido muito pouco tempo para se preparar para discussões políticas, não pudera responder decentemente às perguntas que lhe tinham sido dirigidas pelos principais eleitores. Mas que afirmavam que sua senhoria daria um excelente deputado!».

Isto parece fantástico.

Os amigos do candidato liberal estavam radiosos; era impossível que depois daquele discurso, em que Lord Burghley se declarou, ingenuamente, idiota, sua senhoria tivesse um voto, não contando com o seu! Não se podia realmente supor que um dos círculos mais ricos, mais importantes, mais progressivos da Inglaterra, que até aí fora representado pela alta capacidade de Mr. Ward Hunt, o ministro da Marinha, mandasse ao parlamento um sujeito – que «nunca ouviu falar de semelhante coisa», referindo-se à administração local. Pois bem: dada a votação, verificou-se que Lord Burghley era deputado por uma maioria de mil e quinhentos votos! Os jornais dizem, com razão, que isto faz desesperar de tudo. Porque enfim que razão tiveram para preferir aquele estúrdio imbecil ao seu opositor, um homem instruído, digno, com uma educação política e uma prática administrativa? A razão decrépita, obsoleta, feudal – de que Lord

Burghley é um lorde, filho de lorde, da antiga família Cecil, milionário, proprietário... e foram levados pelo prejuízo tradicional, que lhes fez admirar, venerar, servir e preferir a tudo aquela família ilustre que reina no condado e que lhes faz a honra de lhes aceitar uma renda enorme em troco da licença que lhes outorga de lavrarem a terra e de lhe mandarem as melhores frutas ao castelo!... Que o lorde seja estúpido, infame, devasso, que importa»? É o lorde. Como tal, é ele que deve administrar, ser deputado, general e almirante.». E quando se lhe fala em administração local, nada mais natural que ele encolha os ombros e declare que nunca ouviu falar em semelhante coisa!... Também não tem obrigação».

É o lorde!

Um processo instaurado contra três agentes de policia, implicados numa grande fraude financeira e acusados de terem feito escapar um certo número de falsários notáveis, tem chamado as atenções críticas para a organização da polícia inglesa. E reconhece-se com melancolia que, neste ponto, a Inglaterra está muito abaixo, como sistema e como pessoal, das nações continentais.

Os agentes da policia (detectives) são decerto suficientes, como estratégia e como finura para capturar o ladrão vulgar, bronco e assustado, que abre com chave falsa uma porta traseira ou vasculha as algibeiras de um sujeito distraído: mas desde que se trata de um criminoso astuto, com meios, vastas relações, inventivo e expedito, o detective actual é invariavelmente logrado. Isto provém de que são escolhidos sem educação. A policia é uma ciência que devia ter a sua aprendizagem, os seus compêndios, a sua prática. Mas aqui tudo o que se exige num detective é que ele conheça bem Londres e que tenha uma certa coragem; ora os grandes ladrões conhecem Londres ainda melhor e são, por profissão, mais destemidos! O perigo dálhes a invenção, a ideia, a faísca; e enquanto o detective vai farejando e seguindo antiquados e rotineiros meios de caça (que os criminosos sabem de cor e que evitam a rir) o pássaro desaparece. Em França, na Áustria, na Itália, a polícia é composta de homens que recebem na prefeitura uma educação demorada, que trabalham ao principio sob a direcção de chefes hábeis e que se vão assim iniciando lentamente nas tácticas, nas regras, nos segredos, nas invenções recentes da profissão: ganham deste modo um tacto, um hábito de expediente rápido, um faro, um espírito de intriga e de enredo, uma percepção repentina, um talento inventivo, que os tornam temíveis.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...2425262728...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →