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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

— Não, tia Sabina. Não estou para aturar os Vascos. Diga que estou a escrever p'ra Coimbra. Não jogo o quino,

Em baixo, o nariz de Ricardina, a esta explicacão, alongou-se :

— Podia escolher outra hora para escrevc I

— Rapazes ! — disse o Vasco satisfeito — Deixou o coração em Coimbra.

E o loto começou em torno da mesa, emquanto, deante do album aberto das esquadras universaes, o Albuquerquezinho fazia a sua somneca.

Já o Vasco, para gahir, recolhera a face d'ave triste ao bonet e ao cache-nez, quando Arthur desceu. O pharmaceutico tomou-lhe a mão com affecto :

—- Estimei conhecel-o Aquella casa está ás ordens . . . Eu tinha lido a carta que escreveu ás titias . . . É de muito talento. Eu admiro o talento !

Pobre Vasco ! D. Galathea, ainda depois de dez annos de casada, lhe dava ardores immoderados e zelos pungentes, Outr'ora, interceptara um bilhete do seu praticante, em que o moço a tratava por tu e fallava dos « celestes gozos da outra noite » ; mais tarde, surprehendera-a positivamente nos joelhos do sobrinho do Carneiro, moço imberbe que estudava geometria. Perdoara, mas desde então a desconfiança, a paixão tenaz, junto á hypocondria d'uma doença de figado, dera-lhe aquelle azedume taciturno. A virtude d'Arthur, que experimentou n'outros serões, tornou-lh'o querido. Depois, tendo conversado com elle sobre assumptos que o interessavam, como a Electricidade, o Magnetismo animal, deslumbrado por algumas recordações dos compendios de Introducção que Arthur bordava de phrases do Cenaculo, concebeu uma consideração illimitada pelo talento e pela sciencia do Corvello sobrinho D. Mas não se abandonou imprudentemente a esta sympathia, quiz sondar-lhe os principios e o caracter, e um dia que Arthur entrara na botica a buscar o xarope da Sabininha, o Vasco fechou a porta, para fazer uma solidão propicia, e cruzando formidavelmente os braços, atirou-lhe esta interrogação :

— Quaes são as suas idéas a respeito da familia ? Arthur, interdicto, balbuciou :

— Eu, parece-me que é uma instituição respeitavel.

— De modo que um peralvilho que attenta contra a paz do lar, é um canalha

— Parece-me que é um canalha ! — Muito bem, E se o snr. Corvello fosse legislador, que penalidade lhe infligiria ?

Arthur passou os dedos pela testa, confuso, procurando penalidades :

— Eu, parece-me que o castigo actual do Codigo é sufficiente . , . Tres ou quatro annos de ca deia

— Muitissimo bem . — exclamou o Vasco apertando-lhe a mão. — Estimo que se não afaste d'esses principiog respeitaveis , . .

E n'urn reconhecimento ás Corvellos por possui rem um sobrinho de tanta virtude domestica, pesou um quarto de rebuçados, encartuchou-os e exclamou :

— P'r'as senhoras suas tias, da minha parte. Comprehendo o gosto que fazem em V. Ex. a .

Foi por esse tempo que o Vasco, desgostoso com todos os praticantes moços que tivera, e que invariavelmente tramavam contra a sua honra, obrigado ultimamente a despedir o habil Alfredo, por ser « atiradico 9, concebeu um plano — que d'alli a dias foi muito gravemente communicar ás Corvellos. Era tomar Arthur como seu praticante : oh, elle bem sa bia que um moço de taes talentos, com dons annos de Coimbra, merecia uma posição mais elevada na Sociedade. Mas emfim, o snr. Arthur estava alli na Villa, inactivo, comendo o pão das titis O seu desejo de o possuir era tão forte, que lhe offerecia sete mil e quinhentos por mez ! De resto, a pharmacia era uma Sciencia. Elle estava velho, minado do figado, avido de repouso, e se o snr. Arthur reve lasse talentos verdadeiramente pharmaceuticos, po deria mais tarde passar-lhe a botica, a melhor em todo o districto. De mais a mais, não seria difficil, em alguns mezes, com os estudos que elle tinha, inicial-o na manipulação dos elementos chimicos «que é de tanta responsabilidade, minhas boas senhoras.

Foi uma alegria violenta para as tias. Ainda o Vasco ia no pateo, jó ellas estavam batendo á porta do quarto d'Arthur, que se aferrolhara por dentro na composição ardente de quadras enthusiastas :

Eu quero uma existencia fulgurante I

Mover-me livre sob o livre céu I Quero a gloria épica do Dante

E os amores sublimes de Romeu .

Ficou petrificado, quando Ricardina, enternecida, lhe annunciou a proposta do Vasco, d'aquelle santo !

Praticante de pharmacia !

Parecia parvo, de penna na mão e os cabellos esguedelhados, rolando assim dos céus poeticos onde pairava até aos almofarizes da botica do Vasco !



(continua...)

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