Por Eça de Queirós (1900)
Assim se avizinhavam da Bica-Santa, um dos sítios decantados daquelas cercanias formosas. Aí a estrada, cortada na encosta dum monte, alarga e forma um arejado terraço, donde se abrange todo o vale de Corinde, tão rico em casais, em arvoredos, em searas, em águas. No pendor do monte, coberto de carvalhos e de fragas musgosas, brota a fonte nomeada, que já em tempos de El-Rei D. João V curava males de entranhas e que uma devota senhora de Corinde, D. Rosa Miranda Carneiro, mandou encanar desde o alto até a um tanque de mármore, onde agora corre beneficamente, por uma bica de bronze, sob a imagem e patrocínio de Santa Rosa de Lima. De cada lado do tanque se encurvam dois compridos bancos de pedra, que a espalhada ramaria das carvalheiras tolda de sombra e frescura. E um suave retiro onde se apanham violetas, se comem merendas, e senhoras dos arredores se sentam em rancho, nas tardinhas de domingo, escutando os melros, gozando a povoada, luminosa e verdejante largueza do vale.
Antes porém de desembocar na Bica-Santa, e perto do lugar do Serdal, a estrada de Corinde quebra numa volta: - e, aí, de repente, a égua pulou, num reparo, que obrigou o Fidalgo da Torre, desconfiado da perícia do Solha, a deitar a mão à caimba do freio. Fora o encontro inesperado duma carruagem - uma caleche forrada de azul, com a parelha coberta de redes brancas contra a mosca, e na almofada, teso, um cocheiro de bigode, farda de gola escarlate e chapéu de tope amarelo. E Gonçalo mantinha ainda a égua pelo freio, como melro serviçal em trilho perigoso - quando avistou, untado num dos bancos de pedra, junto da Bica, com um xalemanta por cima dos joelhos, o velho Sanches Lucena. Ao lado o trintanário, agachado, esfregava com um molho de erva a botina que a bela D. Ana lhe estendia, apanhando o vestido de linho cru, apoiando a outra mão, sem luva, na cinta vergada e fina.
A desconcertada aparição do Fidalgo da Torre, puxando pela rédea a sua égua onde se escarranchava regaladamente um cavador em mangas de camisa, alvorotou aquele repousado e dormente recanto da Bica. Sanches Lucena esbugalhava os olhos, esbugalhava os óculos, num arremesso de curiosidade que o levantara, com o pescoço esticado, o xale-manta escorregado para a relva. D. Ana recolheu bruscamente a botina, logo empertigada na gravidade condigna da senhora da Feitosa, retomando como uma insígnia o cabo de ouro da luneta de ouro, suspensa por um cordão de ouro. E até o trintanário ria pasmadamente para o Solha.
Mas já, como seu desembaraço elegante, Gonçalo, num relance, saudara D. Ana, apertava com fervor a mão espantada do Sanches Lucena, e, alegremente, se congratulava por aquele encontro ditoso! Pois vinha justamente da Feitosa! E aí soubera com desgosto, por um moço da quinta decerto exagerado, que o Sr. Conselheiro nas últimas semanas andara doente... E, então como estava? como estava? Oh! a fisionomia era excelente!
- Pois não é verdade, Sra. D. Ana? O aspecto é excelente!
Com um leve requebro da cabeça, um fofo ondear do molho de plumas brancas sobre o chapéu de palha vermelha, ela volveu numa voz rolada, lenta e gorda, que arrepiou Gonçalo:
- O Sanches agora, graças a Deus, desfruta melhor saúde...
- Um pouco melhor, sim, com efeito, muito agradecido a V. Exa., Sr. Gonçalo Ramires! murmurou o descarnado e corcovado homem, repuxando para os joelhos o xale-manta.
E, com os óculos a luzir, cravados em Gonçalo, na curiosidade que o abrasava, quase lhe rosara a face afilada, mais amarela que um círio:
- Mas, com perdão de V. Exa.! como é que V. Exa. anda por aqui, pela estrada de Corinde,neste estado, a pé, trazendo à rédea um lavrador de enxada?...
Rindo, sobretudo para D. Ana, cujos olhos formosamente negros, duma funda refulgência líquida, também esperavam, sérios e reservados, Gonçalo contou o desastre do bom homem, que encontrara no caminho gemendo, arrastando a perna escalavrada...
- De sorte que lhe ofereci a minha égua... E até, se V Exa. me permite, minha senhora, énecessário que eu combine com ele o resto da jornada...
Rapidamente, voltou ao Solha, que, de novo acanhado ante os Senhores da Feitosa, com o chapéu na mão, encolhido sobre o selim, como atenuando a sua grandeza, logo se desestribou para desmontar. Mas já Gonçalo lhe ordenava que trotasse para a Finta - e lhe mandasse a égua por um dos seus rapazes, ali à Bica-Santa, onde ele se demorava com o Sr. Conselheiro. E quando o Solha largou, saudando desabaladamente, torcido, como impelido a seu pesar pelos acenos risonhos com que o Fidalgo o despedia, o assombro do Sanches Lucena recomeçou:
- Ora uma coisa destas! Eu tudo esperaria, tudo, menos o Sr. Gonçalo Mendes Ramires a trazerà rédea, pela estrada de Corinde, um cavador de enxada! E a repetição do Bom Samaritano... Mas para melhor!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.