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#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Salvação

Por Camilo Castelo Branco (1864)

"Fechado na minha alcova, abri a cana de Teodora. Está neste maço lacrado, há catorze anos. Quebre-se o lacre, por amor da autenticidade da história... Aqui tens. Lê tu, enquanto eu dou folga aos pulmões. Há muito ano que não falei tanto tempo!"

Li a carta de Teodora, cujo traslado segue: Quem te disse a ti que eu tinha caído diante de mim mesma, Afonso? Quando te dei eu direito de supor que o teu silêncio, em resposta a um grito do coração, me esmagaria os brios de mulher, que, de um sopro, faz saltar de suas vestes a lama do teu desprezo? Quando eu te apareci magnífica dedicação, fizeste-te mesquinho tu. As minhas lágrimas figuraram-se-te o pus de um coração corrompido; e eram soro do mais nobre sangue.

Não pudeste chegar com a fronte à altura da minha, e apedrejaste-ma! Quem cuidas tu que és, soberbo senhor, que voltas o rosto da tua escrava. e não sabes sequer usar a misericórdia de dizer à mulher que te ama que não seja infame, amando-te?! Neste ponto suspendi eu a leitura, tomei a respiração e disse:

- Esta senhora tem estilo, ou eu não entendo nada de estilos! Que interrogatório!

- Podes rir, que eu também cá estou mordendo os beiços para não espirrar uma casquinada na cara do antigo Afonso de Teive - disse o meu amigo.

- Mas o estilo - tornei sinceramente agradado da leitura -, o estilo aqui não pode ser a mulher: aqui há, pelo menos, a triple inteligência de três escritores de melenas sacudidas aos quatro ventos da inspiração! Por Hércules! Isto, sim, que é mulher... e "aqui há que ver", como diz o Garrett.

- E que ler - ajuntou Afonso de Teive. - Continua, se queres. Perfilei as minhas faculdades inteligentes, e segui a leitura. A contas, homem de ferro, que endureceste o teu frágil barro de outro tempo ao fogo de baixas paixões, a contas com a mulher desprezível!

Que fazias tu quando eu me estorcia de saudades de ti e dores do meu cativeiro, dentro das grades das Ursulinas?

Quando soubeste que a tirania me fechava a sete chaves numa cela e me media os átomos de ar, que eu respirava a furto, que fazias tu para resgatar os quinze anos de uma mulher que queria o sol das flores, das aves, dos mendigos, do último ver-me que se arrasta e cumpre o seu destino debaixo dos olhos de Deus?!

- Parece-me - reflecti eu - que esta senhora arredonda ambiciosamente os períodos, meu caro Afonso; e, se me dás licença, direi que há estilo de mais neste período!... Estou mono por te perguntar que impressão te fazia isto há quinze anos!...

- Lê, e no fim falaremos - disse Afonso. E eu li:

Não respondas. A vil, a abjecta, a desgraçada, é generosa. Não respondas. Ri e escuta.

Abandonada por ti, enganada, não sei por que nem com que fim, por tua mãe, acheime fraca para cruzar os braços e esperar a morte. À borda do abismo. vi uma tábua de salvação. Sabia que, segurando-me nela, as mãos se rasgariam em chagas incuráveis.

Sabia-o; mas agarrei-me à tábua de salvação. Escutei a desgraça; que não tinha outro anjo, nem outro demónio que me aconselhasse. Escutei-a, e aceitei o marido que ela me deu. Perdi-me para a vida da alma; mas encontrei a vida dos olhos e dos ouvidos, e do seio, onde me roía a serpente da soledade e do desabrigo.

Vi árvores, vi estrelas, ouvi os cânticos da Terra e os amorosos murmúrios da natureza festiva. No centro do mundo era eu a única mulher sem mãe, sem pai, sem amigo, sem coração que se abrisse às cinzas do meu. Não importa. Via o Sol no firmamento; e, para além do Sol, a infinita luz dos que bem-disseram a mão do Senhor, que, à sua vontade, desdobra um crepe de trevas sobre os corações, que, em inocência, não ousam interrogá-lo como Job!

- Demais a mais - reflecti eu -, lida nos livros sagrados!... Posso, sem indiscrição, perguntar se a autora desta carta morreu ou vive escorreitamente? - Espera que a concatenação dos factos te elucide - respondeu Afonso.

Prossegui, lendo, com espanto maior que o meu costume, se acerto de topar coisas escritas por pessoas de juizo duvidoso: Transbordou um dia a amargura de minha alma. Não sabia onde me levava a vertigem. Corri léguas. As árvores que gemiam um som, as fontes que tinham uma voz, os trovões que estalavam do céu de bronze, as catadupas que bramiam no despenhadeiro, tudo me dizia o teu nome. Corri as montanhas que nos viram meninos; reconheci a fraga onde nossas mães se sentavam; orei à cruz de pedra que está na quebrada da serra. E não te vi. Dois meses te procurei, sem balbuciar o teu nome. E,. quando há um ano te avistei encostado ao ombro de tua mãe, a voz do meu orgulho de desgraçada disse-me: se ela quiser que tu te percas por ele, amanhã não terás honra, nem família, nem marido, nem criatura sobre a Terra que te não insulte.

(continua...)

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