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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

— Mas eu vou justamente para garantir-te. Fico a teu lado e, se vir aproximar-se alguém com cara de canja ou de grogue... porque eu, pela cara, sei o que os manos farejam, dou o brado, compreendes? Fico de guarda e, mesmo, sendo necessário, podes deixar-me como refém.

— Então sim.

— Olha, acabou. Efetivamente o povo saía em massa. O estudante respirou e foi postar-se junto ao botequim que os caixeiros fechavam. Apagaram-se todos os bicos de gás, o pano de boca subiu e o palco apareceu nu e sombrio. Começaram a sair os atores e Anselmo, sempre que via aparecer, ao longe, uma mulher, movia-se como para ir-lhe ao encontro, mas o Duarte detinha-o:

— Não! Não é. E, intimo dos artistas, dirigia cumprimentos a todos que passavam: "Adeus, Chico! Boa noite, Guilherme! Como vai isso, Lisboa? Bravos à comadre."

— Aí vem ela...! disse, por fim. Era Amélia, muito tesa, com o seu passo miúdo e sacudido. Encaminhou-se para o botequim e, com meiguice, roçando pelo estudante como uma gata amorosa, perguntou: "Se ele havia aturado aquela estopada...?"

— Por tua causa... murmurou ele apaixonadamente e ela, lânguida: — Hei de pagar-te o sacrifício.

O Duarte curvou-se dizendo em tom irônico:

— Muito boa noite, senhora duquesa!

— O Duarte! Estavas aí? Se fosses cobra.

— Não mordo, madame.

— Nem eu sou mordível, respondeu ela a rir e, tomando o braço de Anselmo, muito aconchegada, sussurrou:

— Fazes muito empenho em cear?

— Eu? Se quiseres. Estou por tudo.

— Então vamos para casa.

— Isso não! — exclamou o Duarte; vamos festejar o himeneu com uma Einbek gelada, já que não podemos regar o epitalâmio a champanhe.

— Pois vamos, disse Anselmo passivamente.

— Eu entendo que vocês devem tomar uns ovos quentes e um cálice de Porto. Eu cá sou assim: não embarco para Citera sem levar copiosas provisões. A viagem é longa e fatigante.

— Pois vamos tomar uma garrafa de cerveja. Mas eu não como, jantei tarde, disse Amélia.

— Como vai o Moreira? — perguntou o Duarte.

— Não me fales nesse idiota! É um homem impossível: chora, vive sempre ajoelhado a meus pés, a beijar-me as mãos. Ridículo! Eu gosto de homem, homem...! De maricas não venhas! — exclamou em tom brejeiro. Entraram na Maison Moderne e Anselmo ainda insistiu por um pouco de foie gras, uma salada de arenques com vinho do Reno. Amélia fez um momo: "Aceitava apenas um copo de cerveja para não se fazer rogada."

Estavam os dois enlevados, enquanto o Duarte dava conta de um picadinho à baiana com farofa, quando uma voz rouca estrugiu:

— Correto!

— Olha o Neiva, disse Amélia voltando-se. Era efetivamente o boêmio. Vendo o grupo, dirigiu-se à mesa, e arrastando uma cadeira, pediu, num berro:

— Porto! Depois, muito terno, sorridente: Então que é isto? Que armação é esta? Temos amores?

— Já viste olhos mais ardentes do que os deste menino, Neiva? — perguntou Amélia.

— Não, nunca vi... Mas que tenho eu com isto? Pensa você que sou fiscal da iluminação do amor? Pôs-se de pé, ameaçador e trágico: Menina, cuidado! Este meu amigo é um Otelo de paletó saco!

— Mas eu não sou Desdêmona.

— Isso sei eu. Tu és como a Misericórdia: estás sempre de braços abertos. Honesta como fiel de balança. E, com os olhos imensos, a cabeça enterrada nos ombros, rugiu: Fazes muito bem! Saltou para o meio da sala repetindo: Fazes muito bem! E, chegando-se à atriz: O amor tem asas para voar... volúvel! Volúvel! Nada de ficar amarrada a este ou àquele sujeito. Amar é desejar; depois de saciado o desejo vem o tédio e, quando o tédio chega... só o divórcio.

— Pensam assim os inconstantes como tu, disse a atriz. O Duarte, cruzando o talher, tomou um sorvo de cerveja e, depois de limpar os beiços, suspirou:

— Só eu não sou amado! Se me impressiono por alguma menina, no dia seguinte é pedida em casamento. Eu sou o Himeneu. — Qual Himeneu. Jetabore é que és.

Ou isso. Comecei a amar uma viúva com todas as veras da alma, com todo o fogo do coração, pois...

— Vai casar, adiantou Anselmo sorrindo.

— Não, nasceu-lhe um filho.

— Como! — exclamaram os três.

— Ora, como! Vai perguntar ao marido.

— Então é um filho póstumo?

— É verdade! O homem antes de morrer... É assim, hei de sempre encontrar um tropeço no meu caminho.

— Por que não tiras privilégio dos teus namoros?

— Já pensei nisso. Garçom, mais cerveja! Anselmo lançou um olhar apavorado ao Duarte que, percebendo, disse calmamente:

— Descansa homem; estou aqui com o prumo. O Neiva, fazendo uma careta, repeliu o copo enjoado.

— Não bebes mais? — perguntou Amélia.

(continua...)

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